quinta-feira, 10 de julho de 2008

Conduta de delegado divide cúpula da PF

Delegado teria dito que agiu com receio de que as informações estratégicas da ação pudessem vazar e prejudicar toda a operação

A Operação Satiagraha, apesar de considerada um sucesso pelo governo, dividiu a Polícia Federal pela forma como o delegado responsável Protógenes Queiroz conduziu as investigações. Ele chegou a requisitar agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para auxiliá-lo nos trabalhos que culminaram com a prisão do banqueiro Daniel Dantas.


A cúpula da PF avalia que Queiroz desrespeitou algumas normas de conduta, como não prestar contas do andamento da investigação, não fornecendo sequer informações básicas que permitissem estruturar a parte logística da operação. Por pouco, a ação da PF não foi suspensa na véspera.


A pessoas próximas, Queiroz alega que tomou tais medidas por receio de que informações estratégicas pudessem vazar e prejudicar a operação. Por ter sido feriado ontem em São Paulo, a Folha não conseguiu contatar o delegado.


Um dos integrantes da cúpula da PF, designado para acompanhar a ação em São Paulo, disse a Queiroz que a operação poderia ser abortada se ele não passasse coordenadas mínimas, como os nomes dos alvos dos mandados de prisão. Foi só na noite de segunda que ele informou a cúpula dos detalhes.


O uso de agentes da Abin, por exemplo, não era do conhecimento da chefia da Polícia Federal nem do Ministério da Justiça, que reprovou a prática, embora ela seja legal.


A presença de agentes da Abin nas investigações foi registrada em pelo menos um episódio, ocorrido no dia 27 de maio, quando o carro de Humberto Braz, assessor de Dantas e com prisão decretada, foi seguido nas ruas do Rio quando levava um filho para a escola.


O motorista de Braz suspeitou ser seguido e acionou a divisão anti-seqüestro da polícia do Rio. Ao ser abordado, um homem dentro do veículo, um Astra, se identificou como tenente Marcos, a serviço da Abin. Acabou liberado.


No mesmo dia, Humberto Braz encontrou-se em Brasília com o publicitário Guilherme Sodré, que trabalha para o banqueiro, a quem relatou o episódio ocorrido no Rio.


Sodré, alvo de mandados de busca e apreensão da PF em São Paulo e Brasília, partilhou a informação com o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), político aliado do banqueiro Daniel Dantas no Congresso.


No dia seguinte, Heráclito recebia em seu gabinete o diretor-geral da Abin, delegado Paulo Lacerda, a quem relatou o caso. Inicialmente, Lacerda negou a atuação de agentes da Abin na investigação da PF.


Um dia depois, em 29 de maio, Lacerda voltou a entrar em contato com o gabinete do senador. Dessa vez, teria admitido que um agente da Abin seguiu o carro, mas que teria sido um engano. O policial estaria atrás de um russo.


A admissão da presença de um agente da Abin no caso ocorreu depois que Sodré também acionou o ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, contratado por Dantas.


Greenhalgh teria questionado o Palácio do Planalto sobre a atuação de agentes da Abin em possível monitoramento de diretores do Opportunity no Rio. Só então veio a confirmação, mas com a ressalva de que teria sido um engano. A Folha também tentou falar com o ex-deputado, mas não o localizou.


Ontem, a Abin disse que "sempre que solicitada, havendo a possibilidade, disponibiliza servidores para atuar com órgãos parceiros do governo". Não comentou o caso específico da operação.

Fonte: Folha de S. Paulo

PF viveu guerra e espionagem para prender Dantas

Bob Fernandes

Os intestinos do Brasil.

A Polícia Federal trabalhou duramente para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal não queria, de forma alguma, que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas não fosse preso.

A Polícia Federal trabalhou contra a Polícia Federal.

Esse é mais um capítulo do mergulho nos intestinos do Brasil. Estão presos o banqueiro do Opportunity, o megaespeculador Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e outros 17 dos 21 que tiveram a prisão decretada. É quarta-feira, 9 de julho.

Nas telas, ondas, bits e páginas, a futebolização de sempre: aplausos entusiasmados, críticas ferozes à ação da polícia. O que ainda não chegou à tona é a verdadeira história dessa gigantesca ação policial, da encarniçada batalha que se travou nos setores de Inteligência e da Polícia.

O que se narra aqui são cenas, é o contorno dessa batalha, mas antes é preciso lembrar que este é apenas mais um capítulo.

Crucial, decisivo para que se entenda o todo, o que se movia, se move - e se moverá -, mas apenas mais um capítulo no enredo da maior disputa da história do capitalismo brasileiro, disputa essa que carrega em si o esteio, a sustentação do poder. Do Grande Poder.

O delegado Protógenes Queiroz comandou as investigações no último ano. Antes dele, ao tentar seguir a pista da organização comandada por Dantas, outros delegados fraquejaram. Ou desistiram, ou...

Protógenes foi conduzido ao comando da investigação sigilosa pelo então diretor geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, hoje chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Abin. Paulo Lacerda queria e autorizou a operação até deixar a direção da PF.

Um dia, convidado pelo presidente Lula, Lacerda foi para a Abin. Em seu lugar assumiu Luiz Fernando Corrêa, que chefiava a Força Nacional de Segurança Pública. Luiz assumiu com fama de amigo de José Dirceu.

Se era ou se não era, se suas relações vinham apenas da proximidade no trabalho de segurança da PF ao candidato Lula em eleição anterior, é uma outra questão, mas o fato é que Luiz Fernando chegou ao cargo com essa fama: amigo de José Dirceu.

Logo ao assumir, o diretor da PF quis mais informações sobre que investigação seria aquela relativa aos negócios e métodos de Daniel Dantas. Normal. Parte das suas atribuições de comando.

O delegado Protógenes, por seu lado, ofereceu explicações genéricas, mas guardou o que era secreto, segredo de justiça.

Normal. Manhas de um tira brilhante, esperto, do policial que prendeu Paulo Maluf, o contrabandista Law Kin Chong, que pôs na marca do pênalti o Corinthians da MSI, Kia Joorabichian e Dualib, que investiga para a FIFA as lavanderias do futebol mundo afora.

Normal, em meio aos rumores sobre vazamentos na investigação e, pior, propinas. Subornos em favor de Dantas.

Na diretoria de Inteligência, um aliado do diretor geral na busca de informações amplas sobre o núcleo das investigações: o delegado Daniel Lorenz.

Protógenes Queiróz é duro na queda. Primeiros embates, e a operação Satiagraha perde estrutura. O comando esvazia parte da logística; retira agentes e peritos, encolhe a sala, asfixia as investigações....o corriqueiro nos jogos de guerra.

O jogo é maior, muito maior. As pedras se movem. Ao diretor da Polícia Federal chega o recado. Suave, mas direto: as investigações devem prosseguir.

Fim do ano. Mídia afora, o festival de plantações, versões. A batalha, que é política, comercial, policial, segue seu leito também nas telas, ondas, bits e páginas. Véspera do Natal. Estranhíssima entrevista do diretor geral.

Luiz Fernando Corrêa escolhe o encarte semanal "Brasília" do jornal mineiro Hoje em Dia para mandar um recado em forma de entrevista. Manchete:

-Cada geração tem um papel a cumprir. Cumpriu, sai fora!

Até o vidro fumê do edifício sede da PF em Brasília captou a mensagem e os destinatários: Paulo Lacerda e antigos delegados que comandaram a Polícia durante 4 anos e 8 meses do governo Lula.

Para não haver dúvidas, a capa do tablóide berrou:

-PF dividida.

Véspera do Natal, peru, nozes, vinhos, poucos civis devem ter lido. Mas a polícia inteira leu. Comentou, discutiu. E mesmo o mais desatento agente sacou que a barca do delegado Protógenes Queiroz, fosse qual fosse, não era uma boa aos olhos da direção.

Parênteses. Daniel Dantas e os seus comemoravam, vibravam a cada boa notícia. Sim, o que não faltou nesse enredo foi notícia. Capas e capas.

O carnaval se foi. E um fato: a repórter quer falar com o delegado Queiroz. Quer informações sobre uma investigação que envolveria Daniel Dantas e o Opportunity. Apreensão, no início de abril - e isso são fatos. Objetivos. Conhecidos desde então: a repórter vai publicar o que tem se não for recebida.

A situação se agrava. Por ordem do comando, o delegado Protógenes Queiroz perde quase toda a logística. Fato registrado, inclusive, em imagens: a sala sendo esvaziada, a tralha tecnológica removida.

Queiroz começa a fingir que a operação faz água. Cede, aceita conversar com a repórter; Andréa Michael, da Folha de S.Paulo. Mas faz uma exigência aos superiores: quer a presença do diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, e de Lorenz, o diretor de Inteligência.

Corrêa não vai, manda alguém da comunicação social. Lorenz, presente. Na conversa, o delegado Queiroz contorna, tergiversa, despista, e guarda tudo o que disse e o que não disse.

Sábado, 16 de Abril. Anunciado o acordo das teles, vem aí a BrOi. No caderno "Dinheiro", da Folha, em quase meia página a repórter Andréa Michael relata os contornos de uma operação a caminho, destinada a prender Daniel Dantas.

Domingo, 17 de Abril. A operação está morta. Protógenes Queiroz faz dois movimentos. Primeiro, na véspera, a ligação para Lorenz, que está no Chile. Cobra a conta da conversa com a repórter, quando apenas despistou. A conversa, de parte a parte, não é boa.

Segundo movimento: Queiroz, para efeito externo, dá a operação como morta. Para efeito interno, os fatos incendeiam agentes, peritos e delegados envolvidos numa operação cada vez mais secreta.

Segue a semana. Queiroz é comunicado. Não há, não haverá mais logística alguma. Caso encerrado. Caso que o diretor geral e o diretor de Inteligência seguem a desconhecer em seu teor. O delegado está solto no espaço.

Uma outra rede conecta-se, subterrânea, solidária. O outro lado da polícia trabalha, secretamente, pela Satiagraha, a "firmeza na verdade" de Gandhi.

Notas em colunas, sites. Chutes, bravatas, cascatas, desinformação. A operação é adiada. Uma, duas, três vezes.

O delegado Protógenes Queiroz é monitorado, vigiado. Pela Polícia Federal. E sua equipe contra-ataca: vigia, monitora, flagra e registra, os movimentos dos monitoradores da própria PF.

Daniel Dantas e os seus estão tensos. Em dúvida: acabou, ou não acabou? Na dúvida, encaminham ao Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus preventivo, para Dantas e a irmã, Verônica.

Daniel Dantas morde a isca. Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom e o amigo Hugo Chicaroni são os intermediários. A oferta é feita ao delegado Vitor Hugo Rodrigues Alves.

Na churrascaria El Tranvia, bairro de Santa Cecília, São Paulo, o ensaio para o acordo final: US$ 1 milhão.

Como sinal, duas parcelas, uma de 50 e outra de 80, e pagamento em outras duas de US$ 500 mil. Encontros e acordos fechados em 18 e 26 de junho. Para livrar a cara dos Dantas.

Há algo no ar. Frases soltas.

Gilmar Mendes é o presidente do STF. No meio da semana, pós-São João, desponta nas telas, um tempão nos telejornais, nas manchetes do dia seguinte. Refere-se a informações vazadas por policiais, uma "coisa de gângsters" e ao "terrorismo lamentável".

A fala ecoa. Cada um entende como quer. Críticas gerais às interceptações telefônicas (mesmo às autorizadas judicialmente).

Julho chegou. Fim de semana. Notas, boatos... Daniel Dantas está em Nova Iorque... Daniel Dantas aguarda o habeas corpus para voltar ao Brasil...

Sete de Julho. O delegado geral, Luiz Fernando Corrêa, que até a véspera nada sabia sobre a verdadeira extensão de Satiagraha, quer agora saber de tudo. De tudo, não saberá. Extrema tensão. Como há um mês, no Rio de Janeiro.

Agentes da equipe de Queiroz seguiam gente dos Dantas, pelas ruas do Rio. A polícia foi chamada, quase um confronto até o esclarecimento "somos da PF" e o despiste numa operação banal qualquer. Mas a queixa subiu.

Chegou ao diretor geral da PF, a Heráclito Fortes (DEM-PI) no senado e ao advogado geral da União, José Antonio Toffoli, adentrou o Supremo Tribunal.

Seis da manhã, 8 de julho. Avenida Viera Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Daniel Dantas está preso.

Furacão na mídia, por todo o dia. À noite nos telejornais e no dia seguinte, este 9 de julho, a repercussão.

Gilmar Mendes, o presidente do STF ataca a "espetacularização das prisões incompatível com o Estado de Direito", critica duramente o pedido de prisão, negado, contra a repórter da Folha de S. Paulo:

-...isso faz inveja ao regime soviético...

Frases soltas no ar.

Miriam Leitão, a comentarista econômica, também está no ar. Na rádio CBN, Miriam conversa com Carlos Alberto Sardenberg.

Meio dia e quarenta. Miriam diz não ter entendido direito porque Daniel Dantas foi preso. Afinal, constata, as acusações são inconsistentes, "coisas do passado", e é preciso que a Polícia Federal explique melhor por que fez essa operação "com tamanho estardalhaço..."

Miriam se vai. Sardenberg chama os comerciais, não percebe que o microfone está aberto, e deixa escapar:

-...ela tava estranha, não?

Frases soltas no ar.

Daniel Dantas está preso. Esse, o policial, é mais um capítulo da operação que chegou aos intestinos do Brasil.

Fonte: Terra Magazine

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Operação Satiagraha da Polícia Federal prende "mega ladrões" e incomoda ministro do STF

Presidente do STF: 'espetacularização das prisões' em operação da PF

Gilmar Mendes diz que “dificilmente” a ação da PF é compatível com o estado de Direito.
Foram presos Daniel Dantas, o ex-prefeito Celso Pitta e o empresário Naji Nahas.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, voltou a criticar a "espetacularização das prisões" durante operação da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (08/07/2008). Ele disse que a Operação Satiagraha da PF, que investiga desvio de verbas públicas e crimes financeiros, “dificilmente” é compatível com o estado de Direito.

“De novo é um quadro de espetacularização das prisões, isso é evidente, dificilmente compatível com o estado de Direito, uso de algema abusivo, já falamos sobre isso aqui, mas tudo isso terá que ser discutido”, disse Gilmar Mendes, ao chegar a uma solenidade no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), na noite desta terça.

Na ação da PF, foram presos, entre outros, o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o empresário Naji Nahas.


Gângster

No último dia 1º, Gimar Mendes atacara o vazamento de escutas telefônicas em investigações criminais feitas pela PF. Na ocasião, ele cobrou uma atuação enérgica do governo federal para coibir o suposto uso dos grampos para intimidar agentes públicos. E disse que isso é “coisa de gângster”.

“Veja que tipo de terrorismo lamentável. Coisa de gângster, quem faz isso na verdade não é agente público, é gângster”, disse.

Navalha

Durante as investigações da PF sobre o esquema de fraude em licitações desmontado pela Operação Navalha, um suposto vazamento equivocado de informações, em 2007, irritou o ministro. Na época, segundo ele, a PF teria vazado que alguém com nome igual ao dele estaria numa lista de autoridades que teriam recebido presentes da construtora Gautama, principal alvo da ação.

Na ocasião, ele aproveitou para criticar a atuação da Procuradoria Geral da República. Disse que muitas vezes ela é “co-autora, cúmplice e conivente” com a prática.

“Muitas vezes, esses fatos são revelados e ficam na memória apenas daqueles que são eventualmente prejudicados ou atingidos. Hoje mesmo falei com o dr. Antonio Fernando [de Souza , procurador-geral da República] que o Supremo Tribunal Federal vai exigir que essas representações que foram encaminhadas tenham curso”, afirmou.


Suposto suborno

Os agentes da PF apreenderam carros e R$ 1 milhão na casa de um dos detidos. Ele foi acusado de tentar subornar um delegado da PF a mando de Daniel Dantas. O suspeito teria oferecido US$ 1 milhão para o delegado retirar nomes do inquérito, de acordo com o Ministério Público Federal. A suspeita é de que parte do dinheiro apreendido fosse ser utilizado para a tentativa de suborno.

Nélio Machado, que defende Daniel Dantas, disse que a prisão ocorreu de forma irregular, uma vez que seu cliente não oferecia perigo, e negou as acusações de fraude. Segundo ele, Dantas não conhecia Celso Pitta nem Naji Nahas. Ele afirmou não ter obtido informações sobre o teor do processo e quando tiver disse que entrará com pedido de soltura.

Núcleos

Segundo a PF, haveria dois núcleos principais na suposta quadrilha. Um deles seria comandado por Daniel Dantas e teria se beneficiado de recursos públicos, desviados pelos operadores do mensalão. Empresas de fachada teriam sido montadas para o desvio das verbas.

Além do grupo de Dantas, a PF teria descoberto um segundo núcleo, ligado ao primeiro, formado por empresários e doleiros que atuavam no mercado financeiro para fazer a lavagem do dinheiro. Esse grupo, segundo a PF, seria comandado pelo empresário Naji Nahas. Era nesse grupo que estaria o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.

O elo entre os dois grupos seria Dantas e Nahas.

Celso Pitta

De acordo com o procurador da República Rodrigo de Grandis, Celso Pitta teria recebido de Naji Nahas dinheiro que viria do exterior. "Tudo sugere que o dinheiro entregue por Nahas a ele (Pitta) era dinheiro de Pitta que está no exterior. (...) Há fortes indícios que o dinheiro de Pitta é proveniente de dinheiro desviado da prefeitura (de São Paulo). Mas ainda não há certeza disso."

A advogada de Celso Pitta, Paula Sion de Souza Neves, afirmou que ainda vai se inteirar sobre o processo. "A gente agora vai se inteirar e provavelmente formular pedido para que ele seja solto antes dos cinco dias." Ela disse não saber se Pitta conhecia Naji Nahas.

Naji Najas

O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, responsável pela investigação da Operação Satiagraha, afirmou que o empresário Naji Najas tinha um "megacontato" que lhe repassava informações sigilosas do Banco Central norte-americano, o Federal Reserve (Fed).

"Muitos nos supreendeu do Fed, megacontato do Naji Nahas no Brasil e no exterior que teve indícios de manipulação do mercado financeiro internacional, onde ele se privilegia da informações para aplicar no mercado internacional", afirmou o delegado.

Em nota divulgada mais cedo, a PF havia informado que a operação detectou "indícios inclusive do recebimento de informações privilegiadas sobre a taxa de juros do Federal Reserve".

O advogado de Naji Nahas, Sérgio Rosenthal, disse nesta terça-feira (8) não ter conhecimento dos detalhes da operação que levaram à prisão de seu cliente.

"Nós estamos em meio à operação, a operação é sigilosa. Nós não temos os detalhes ainda. Assim que eu tiver detalhes eu poderei conversar com vocês", disse Rosenthal.

O nome da operação, Satiagraha, significa resistência pacífica e silenciosa, conforme nota divulgada pela PF.

Fonte: G1

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Colômbia resgata Ingrid Betancourt e outros 14 reféns das FARC

O governo da Colômbia anunciou nesta quarta-feira, 02/07/2008, o resgate de Ingrid Betancourt, três reféns americanos e de outros 11 seqüestrados que estavam sob o poder das Farc.

De acordo com o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, o resgate foi realizado em zona de selva a 72 km da capital do departamento de Guaviare, no sudoeste da Colômbia, em uma operação realizada pelas forças armadas colombianas. Os reféns estão em boas condições de saúde e estão sendo levados a base militar de Tolemaida, informa o ministro.

"Seguiremos trabalhando na libertação dos demais seqüestrados. Fazemos um apelo aos atuais líderes das Farc para que não se matem, libertem os outros reféns e não sacrifiquem seus homens", disse Santos.

A senadora e então candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt foi seqüestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no dia 23 de fevereiro de 2002, junto com sua companheira de chapa Clara Rojas. A ação aconteceu perto de San Vicente del Caguán, 740 km ao sudeste de Bogotá, durante o governo de Andrés Pastrana.

Já os três norte-americanos, Thomas Howes, Marc Gonsalves e Keith Stansell, eram trabalhadores a serviço da Departamento de Defesa dos EUA em missão antidrogas que foram seqüestrados quando o avião em que estavam caiu na Colômbia em fevereiro de 2003.

O seqüestro de Betancourt

A franco-colombiana Ingrid Betancourt foi seqüestrada em 2002 e virou símbolo dos acordos conflituosos entre as Farc e o governo colombiano. Nas eleições em que Betancourt concorria como candidata à presidência, foi eleito Álvaro Uribe, partidário da linha dura com a guerrilha.

Já no poder, Uribe revela um plano para enviar rebeldes presos ao exterior, com apoio da França, em troca da libertação de seqüestrados políticos. A troca seria de 45 reféns, incluíndo Betancourt por 500 guerrilheiros presos.

Em 9 de julho de 2003, a França envia um avião a Manaus, na Amazônia brasileira, para uma eventual libertação de Betancourt, numa operação secreta que fracassa.

Em dezembro de 2004, o presidente colombiano Álvaro Uribe liberta 23 guerrilheiros para destravar o bloqueio a um acordo. No dia seguinte, as Farc pedem a libertade de 500 rebeldes.

Um ano depois, em 13 de dezembro de 2005, França, Espanha e Suíça propõem negociar a troca de reféns por prisioneiros em uma pequena propriedade rural no sudeste da Colômbia, com observação internacional. Uribe aceita. Mas em 2 de janeiro de 2006, a guerrilha diz desconhecer a proposta européia e considera que negociar seria favorecer Uribe, que estava em campanha para reeleição.

Uribe é reeleito para um segundo mandato. No início de 2007, Uribe diz ante a cúpula da polícia que o ano será "crucial para resgatar os seqüestrados". A França e a família de Betancourt se opõem a uma operação militar.

Em 28 de abril, o policial John Frank Pinchao, que partilhava o cativeiro com Betancourt, consegue escapar e conta que ela permanece num acampamento na selva do sudeste da Colômbia.

Em 6 de maio, em seu primeiro discurso após ser eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy afirma que não esquecerá da sorte de Betancourt. No mês seguinte, Uribe começa a liberar mais de 120 guerrilheiros, entre eles o chamado "chanceler" do grupo, Rodrigo Granda, cuja liberdade foi solicitada por Sarkozy.

Em 17 de agosto, o presidente venezuelano Hugo Chávez aceita fazer a mediação entre as Farc e Uribe. Três meses depois, porém, Álvaro Uribe suspende a mediação de Chávez junto aos rebeldes, acusando o presidente venezuelano de ingerência nos assuntos internos da Colômbia.

No final de dezembro do ano passado, a guerrilha anunciou a intenção de entregar a Chávez a ex-deputada Consuelo González, a ex-candidata a vice-presidente Clara Rojas e o filho dela, Emmanuel, nascido em cativeiro. A decisão é um ato de "desagravo" ao afastamento do venezuelano da negociação.

Em 10 de janeiro, as Farc libertam as duas políticas em uma região na selva do departamento de Guaviare. No começo de fevereiro, o anúncio de mais três libertações. Em 27 de fevereiro, são entregues os ex-parlamentares Luis Eladio Pérez, Orlando Beltrán, Gloria Polanco e Jorge Eduardo Gechém.

EUA usaram métodos chineses de tortura em interrogatórios de Guantánamo

Os instrutores militares que seguiram para a Baía de Guantánamo em dezembro de 2002 basearam uma aula inteira sobre interrogatórios em uma cartilha que mostrava os efeitos das "Técnicas de Gerenciamento Coercitivo" para uma possível utilização em prisioneiros, incluindo "Privação de Sono", "Imobilização Prolongada" e "Exposição ao Frio".

O que os instrutores não disseram - e pode ser que não soubessem - foi que a cartilha era uma cópia literal de um estudo feito pela Força Aérea dos Estados Unidos, em 1957, sobre as técnicas comunistas chinesas utilizadas durante a Guerra da Coréia para obter confissões, muitas delas falsas, de prisioneiros norte-americanos.

A cartilha reciclada é a última e a mais vívida evidência da forma como os métodos comunistas de interrogatório que os Estados Unidos descreveram por muito tempo como sendo tortura tornaram-se a base dos interrogatórios realizados tanto pelas forças armadas em Guantánamo quanto pela Agência Central de Inteligência (CIA).

Alguns métodos foram aplicados em um pequeno número de prisioneiros de Guantánamo antes de 2005, quando o Congresso proibiu o uso da coerção pelas forças armadas. A CIA ainda conta com a autorização do presidente Bush para utilizar vários métodos secretos "alternativos" de interrogatório. Diversos documentos de Guantánamo, incluindo a cartilha que descreve os métodos coercivos, foram divulgados em uma audiência do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas em 17 de junho, que analisou como foi que tais táticas passaram a ser empregadas.

Mas os investigadores do comitê não sabiam que a origem da cartilha estava no artigo publicado há meio século em um periódico militar, uma conexão que foi divulgada ao "New York Times" por um especialista em interrogatórios independente, que falou sob a condição de que o seu nome não fosse revelado.

O artigo de 1957 do qual a cartilha foi copiada tem o título "Communist Attempts to Elicit False Confessions From the Air Force Prisoners of War" ("Tentativas Comunistas de Obter Falsas Confissões de Prisioneiros de Guerra Membros da Força Aérea"), e foi escrito por Alfred D.

Biderman, um sociólogo que servia na Força Aérea, e que morreu em 2003.

Biderman entrevistou ex-prisioneiros norte-americanos que retornaram da Coréia do Norte, alguns dos quais foram filmados pelos seus interrogadores chineses confessando ter praticado guerra bacteriológica e outras atrocidades.

Essas confissões orquestradas geraram alegações de que os prisioneiros norte-americanos tinham sofrido "lavagem cerebral", e motivaram as forças armadas a intensificar o seu treinamento no sentido de proporcionar a alguns dos seus membros um sabor dos métodos duros dos inimigos, a fim de evitar que eles capitulassem rapidamente caso fossem capturados.

Em 2002, o programa de treinamento, conhecido como SERE (acrônimo em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga), transformou-se em uma fonte de métodos de interrogatório tanto para a CIA quanto para as forças armadas. Naquilo que os críticos descrevem como um caso notável de amnésia histórica, as autoridades que recorreram ao programa SERE parecem não ter tido consciência de que ele foi criado como resultado da preocupação quanto às falsas confissões feitas pelos prisioneiros norte-americanos.

O senador Carl Levin, democrata pelo Estado de Michigan, presidente do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas, disse, após examinar o artigo de 1957, que "todo norte-americano ficaria chocado" com a origem do documento de treinamento.

"O que faz com que este documento seja duplamente chocante é o fato de que essas eram técnicas usadas para a obtenção de falsas confissões", afirma Levin. "As pessoas dizem que precisamos de informações de inteligência, e elas estão certas. Mas não necessitamos de falsas informações de inteligência".

O tenente-coronel Patrick Ryder, um porta-voz do Departamento de Defesa, disse que não poderia fazer comentários a respeito da cartilha de treinamento utilizada em Guantánamo. "Não posso especular a respeito de decisões anteriores que podem ter sido tomadas antes da atual política do Departamento de Defesa para interrogatórios", disse Ryder. "Posso afirmar a vocês que a atual política do Departamento de Defesa é clara - nós tratamos todos os detentos humanamente".

O artigo escrito por Biderman em 1957 descrevia "uma forma de tortura" usada pelos chineses que consistia em obrigar os prisioneiros norte-americanos a "ficar de pé por períodos excessivamente longos", às vezes em condições de "frio extremo". Ele escreveu que tais métodos passivos eram mais comuns do que a violência física direta. Obrigar os prisioneiros a ficar de pé por longos períodos e expô-los ao frio foram técnicas utilizadas pelos interrogadores norte-americanos militares e da CIA contra os suspeitos de serem terroristas.

A cartilha também descreve outras técnicas utilizadas pelos chineses, incluindo "fome parcial", "exploração de ferimentos" e "ambientes sujos e infestados", bem como os efeitos provocados por tais métodos: "Tornam a vítima dependente do interrogador", "Enfraquecem a Capacidade de Resistência Mental e Física" e "Reduzem o Prisioneiro a Preocupações de 'Nível Animal'".

A única modificação feita na cartilha apresentada em Guantánamo foi a retirada do título original: "Métodos Coercivos Comunistas para Gerar a Colaboração Individual".

Os documentos divulgados no mês passado incluem uma mensagem de e-mail de dois instrutores de SERE, relatando o período que passaram em Guantánamo, de 29 de dezembro de 2002 a 4 de janeiro de 2003. Segundo a mensagem, o objetivo era apresentar aos interrogadores "a teoria e a aplicação das pressões físicas utilizadas durante o nosso treinamento".

De acordo com a mensagem, as sessões incluíram "uma aula profunda sobre os Princípios Biderman", em uma referência à cartilha baseada no artigo de Biderman publicado em 1957. Versões da mesma cartilha, identificada com freqüência como "Cartilha de Coerção de Biderman", circulam em sites na Internet contrários às seitas baseadas no fanatismo religioso. Os métodos da cartilha são utilizados por esses sites para demonstrar como tais seitas controlam os seus membros.

O psiquiatra Robert Jay Lifton, que estudou prisioneiros que retornaram de guerras, e escreveu um artigo na mesma edição de 1957 do periódico "The Bulletin of the New York Academy of Medicine", disse em uma entrevista que ficou perturbado ao saber que os métodos chineses foram reciclados e ensinados em Guantánamo.

"Isso me entristece", afirmou Lifton, que em 1961 escreveu um livro sobre aquilo que os chineses chamavam de "reforma do pensamento", e que se tornou conhecido na linguagem popular norte-americana como lavagem cerebral. Ele classificou a utilização de técnicas chinesas por interrogadores norte-americanos em Guantánamo de "uma virada de 180º".

O interrogatório mais brutal ocorrido em Guantánamo do qual se tem conhecimento foi o de Mohammed al-Qahtani, um membro da Al Qaeda suspeito de ser o "20º seqüestrador" nos ataques de 11 de setembro de 2001. Os interrogatórios de Al Qahtani envolveram privação de sono, posições estressantes, exposição ao frio e outros métodos também usados pelos chineses.

As acusações de terrorismo contra al-Qahtani foram retiradas inesperadamente em maio deste ano. As autoridades informaram que as acusações poderiam ser feitas novamente mais tarde, e recusaram-se a dizer se a decisão foi influenciada por preocupações quanto ao tratamento a que al-Qahtani foi submetido.

Bush defendeu o uso de métodos brutais, alegando que estes ajudam a fornecer informações críticas de inteligência e a prevenir novos ataques terroristas. Mas a questão continua a complicar os processos há muito atrasados, que agora estão em andamento em Guantánamo.

Abd al-Rahim al-Nashiri, um membro da Al Qaeda acusado de desempenhar um papel importante no ataque a bomba contra o destróier norte-americano "Cole" no Iêmen, em 2000, foi acusado na segunda-feira de assassinato e outros crimes. Em audiências anteriores, al-Nashiri, que foi submetido ao "waterboarding" (técnica de tortura conhecida como "afogamento"), afirmou ter confessado falsamente a sua participação no ataque porque estava sendo torturado.

Fonte: The New York Times

terça-feira, 1 de julho de 2008

Por que Moscou está arriscando uma nova Guerra Fria?

Bombardeiros estratégicos além da costa americana, navios de guerra no Mediterrâneo -as forças armadas russas estão exibindo seu poderio novamente, com Moscou gastando bilhões em novas armas.

Às onze horas da noite, quando a lua está refletida nas águas que se movem lentamente do Rio Volga, quando as estepes estão exalando o calor do dia, e quando os últimos bares estão fechando em Yekaterinburgo e Pokrovsk - antigas cidades provinciais na margem esquerda do rio - Gennady Stekachov está a caminho da política mundial. E todos podem ouvir.

As venezianas sacodem nas velhas casas de madeira que colonos alemães construíram há 250 anos, e os vidros das janelas trepidam nos prédios de apartamentos pré-fabricados da época soviética.

A comoção se deve a Stekachov estar conduzindo seu bombardeiro de longo alcance, de 150 toneladas, por uma pista nos arredores da cidade e, juntamente com sua tripulação de sete outros homens, decolando rumo ao céu noturno.

Ele segue sua rota habitual para o norte, sobre o Mar Ártico e o Mar de Barents, e então se volta para o Ocidente para contornar a calota de gelo polar. Os primeiros caças da Otan, agora em alerta elevado, aparecem quando Stekachov chega à costa norueguesa. De lá, os jatos - Mirages franceses, Tornados britânicos ou F-16s noruegueses - escoltam o Tupolev Tu-95 além das ilhas Faroë e Shetland (Escócia) até próximo da costa americana.

Os homens passam 16 horas no ar, com nada exceto o oceano abaixo e nem mesmo um toalete a bordo. Mas apesar da falta de conforto, a viagem oferece bastante empolgação de arrepiar os cabelos, como quando uma aeronave da Otan cruza o caminho de Stekachov bem abaixo de sua aeronave, que pode carregar 16 mísseis de cruzeiro aos cantos mais remotos do planeta.

Stekachov finalmente vê um propósito para sua profissão, agora que a Rússia está novamente enviando sua força aérea estratégica em vôos de patrulha pelo mundo, após um hiato de 15 anos causado por falta de recursos. "Em quatro meses", ele disse, "minha tripulação realizou sete missões até próximo da costa americana". Stekachov, um tenente-coronel de uma pequena cidade pouco conhecida no Volga, teve que esperar 15 anos pela experiência.

Se qualquer alemão está familiarizado com Engels, uma cidade de 200 mil habitantes a 350 quilômetros da ex-Stalingrado, ele a conhece como a capital da antiga República Autônoma Alemã do Volga, que o ditador Josef Stalin dissolveu em agosto de 1941, banindo seus moradores para a Sibéria e Cazaquistão. E os aficionados por vôos espaciais podem até mesmo conhecê-la como a cidade onde Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta do mundo, pousou com seu pára-quedas em 12 de abril de 1961.

Mas Engels é mais conhecida pelos russos. Moscou construiu sua primeira escola para pilotos militares ali em 1930. Hoje, o aeroporto da cidade é lar da 22ª Divisão de Bombardeiro Pesado do 37º Exército do Ar - uma unidade que, em caso de conflito nuclear, levaria as bombas nucleares russas até alvos em território inimigo. Trinta e sete grandes bombardeiros estão atualmente estacionados em Engels para este propósito. Eles incluem 18 aeronaves Tu-95 de quatro motores turboélices, conhecidos como "Bears" (ursos) no jargão da Otan, com autonomia de 15 mil quilômetros, e 15 jatos Tu-160, que os russos consideram as fortalezas voadoras mais formidáveis do mundo, voando a velocidades máximas de mais de 2 mil km/h e com espaço para 40 toneladas de bombas a bordo - conhecidos no Ocidente como "Blackjacks".

Há apenas uma década, a base aérea de Engels estava praticamente vazia. O ex-presidente russo Boris Yeltsin ordenou que a maioria dos bombardeiros russos fosse transferido para outros lugares. Mas hoje uma bandeira na entrada da base aérea encoraja os moradores locais a reacenderem a "glória das armas russas".

Um ar de Guerra Fria foi revivido entre o Oriente e o Ocidente desde que a Rússia começou a enviar novamente seus pilotos em missões, desde que suas aeronaves, em um retorno aos tempos soviéticos, reapareceram nas telas de radar do Ocidente, e desde que, ocasionalmente, se aproximaram a curta distância da fronteira britânica, sobrevoaram o porta-aviões americano Nimitz e uma ilha japonesa (apesar de desabitada), que Tóquio respondeu com o envio de duas dúzias de caças para expulsar os intrusos. "Nosso trabalho é mostrar que como somos capazes de voar tão longe, que nós também somos capazes de levar as armas aos nossos destinos", disse o general Pavel Androssov, o comandante de todas as aeronaves estratégicas.

De volta aos negócios
As forças armadas russas, ainda uma das maiores do mundo, com seus 1,1 milhão de soldados, estão de volta - e não apenas no ar. A Marinha está realizando de novo exercícios no Atlântico e no Mediterrâneo, e em fevereiro o Yury Dolgoruki foi o primeiro de uma nova geração de submarinos russos a deixar sua doca. A nova embarcação é um gigante entre os submarinos, capaz de disparar 16 mísseis carregando ogivas nucleares e de permanecer submerso por até 100 dias. Uma grande manobra da frota do Pacífico e Mar Ártico do país será conduzida em um dos oceanos do mundo em breve. O comandante do exercício é o presidente Dmitry Medvedev.

Em 2007, o orçamento militar da Rússia saltou para 822 bilhões de rublos, ou US$ 35,4 bilhões. E como o petróleo está enchendo cada vez mais os cofres do governo de dinheiro, o Kremlin e seus generais realizaram vários anúncios espalhafatosos recentemente. Moscou espera contar com 50 bombardeiros estratégicos até 2015, munidos com muitos mísseis balísticos intercontinentais "Topol-M", assim como oito submarinos nucleares "Bora" (vendaval). Ele também desenvolveu um novo míssil balístico, o "Bulava" (clava), e o T-95 - o "tanque do século 21"- será colocado em serviço no próximo ano.

"A máquina militar russa está de volta aos negócios", escreve o "Daily Telegraph do Reino Unido, descrevendo o "aumento dramático em potencial militar" da Rússia. Segundo o general Michael D. Maples, chefe da Agência de Inteligência da Defesa (DIA) dos Estados Unidos, "a Rússia está tentando restabelecer um grau de poderio militar que esteja à altura de sua força econômica renovada e confiança política". E para o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, a modernização das forças armadas russas "ressalta a importância de nossa manutenção de um dissuasor nuclear válido" no futuro, como ele disse aos oficiais da Força Aérea americana no início de junho.

Esta é exatamente a linguagem que os líderes militares de Moscou gostam de ouvir. Isto faz com que sintam que estão novamente sendo levados a sério. "As pessoas não gostam dos fracos. Elas não dão ouvidos a eles e os insultam. Mas se tivermos uma paridade de novo, eles adotarão um tom diferente conosco", diz o ex-ministro da Defesa russo, Sergei Ivanov.

Mas o que significa quando chefe do Estado-Maior militar em Moscou, em resposta aos planos americanos de instalar um sistema antimísseis na Polônia e na República Tcheca, volta a falar sobre o "uso preventivo de armas nucleares?" Quando ameaça a Geórgia e a Ucrânia, ambas ex-repúblicas soviéticas, com "força militar e outras medidas" caso ingressem na Otan? Ou quando Moscou, como aconteceu em dezembro, suspende sua participação no Tratado de Forças Convencionais na Europa (FCE) e passa a questionar outros acordos, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário?

Será isto uma demonstração de força para fins políticos domésticos, visando estimular o orgulho patriótico entre os russos? Estará a Rússia tentando voltar ao cenário internacional com instrumentos dos anos 70? Ou o Kremlin realmente se sente ameaçado de novo pelo Ocidente?

O restaurante Akademiya de Moscou fica em uma pequena travessa atrás do bulevar Tver, ao lado de uma sinagoga recém-construída. É um dos estabelecimentos chiques freqüentados pela nova elite russa. Stanislav Belkovsky, um homem atarracado com barba de três dias, óculos e uma ampla testa, que gosta de fazer seu café da manhã aqui, é o chefe do privado Instituto de Estratégia Nacional de Moscou.

A noção de que a Rússia está restaurando seu poderio militar a um nível próximo daquele da era soviética "não tem nada a ver com a realidade", diz Belkovsky. "Faz parte da propaganda com a qual o Kremlin busca distrair a atenção do público." Segundo um dossiê de quase 70 páginas intitulado "A Crise e o Declínio do Exército Russo" e publicado por seu instituto, a liderança militar deveria na verdade renunciar em massa. O relatório sugere que os anúncios e números apresentados pelas forças armadas são pura fantasia.

'Distraindo a atenção do público'
Segundo o dossiê, o exército recebeu apenas 90 tanques ultrapassados nos últimos sete anos, todos da única fábrica de tanques restante no país, na região dos Montes Urais. Especialistas ridicularizam o muito alardeado T-95, do qual falam há 15 anos, como sendo uma "ficção". Durante o mandato do ex-presidente Vladimir Putin, a força aérea recebeu apenas dois novos caças-bombardeiros Su-34, o caça Su-35, apresentado no ano passado como sendo um novo modelo, é na verdade um primo próximo de uma aeronave que já estava no ar durante o primeiro ano de governo do ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov, em 1985. Segundo o relatório de Belkovsky, projetistas russos estão "pelo menos 20 anos atrasados em relação aos seus pares americanos no desenvolvimento de seus caças de quinta geração". Apenas 50% de todos os aviões e helicópteros do país estão em operação, e as forças armadas russas sofrerão um déficit de 4.500 aeronaves no próximo ano, quando equipamento ultrapassado for retirado de serviço. A situação não é menos dramática no que se refere às armas nucleares. Sob Putin, 405 mísseis e 2.498 ogivas nucleares foram retirados de serviço, mas apenas 27 novos mísseis foram produzidos - três vezes menos do que sob o regime de Yeltsin, que foi altamente criticado por ser brando demais com os americanos. E a vida útil de 80% dos mísseis balísticos intercontinentais da Rússia expirou há muito tempo.

Belkovsky e seu instituto vêem o novo míssil "Topol-M" como uma arma "com valor dissuasor zero", porque os americanos sabem onde os mísseis estão estacionados e são capazes de atacar o projétil de 100 toneladas, juntamente com seu transporte, "com uma precisão de um centímetro" enquanto estiver sendo retirado de seu bunker. E o "Clava", o novo míssil "Bulava" com que a liderança militar planeja atualizar sua frota nuclear? Quase todos os testes até o momento provaram ser um fracasso. A SS-X-29, uma arma altamente secreta que contém múltiplas ogivas e, segundo os russos, é "invisível" porque é supostamente capaz de enganar todos os sistemas antimísseis, parece ter apresentado um desempenho igualmente ruim até o momento. Apenas 12 navios na frota naval, a base do escudo nuclear russo, estão atualmente equipados com mísseis balísticos.

"Nos anos 90, nós conseguimos mais ou menos manter o potencial estratégico que herdamos da União Soviética no mesmo nível", diz Belkovsky, sorrindo maliciosamente, "mas desde 2000, sua redução avançou com a força de uma avalanche. Nós perderemos nossa capacidade de conter nossos inimigos a nível nuclear". A menos que algo mude sob o novo presidente, diz Belkovsky, até mesmo as forças armadas convencionais da Rússia "sofrerão um declínio ao nível de um país europeu de tamanho médio em oito a 10 anos, e não seremos capazes de acompanhar países como a Turquia e o Japão".

Melhor grande do que eficaz
Pessoas de dentro da esfera política de Moscou consideram as suposições de Belkovsky provocativas demais, apesar de alguns acreditarem que ele está diminuindo os riscos de sua aposta e está em conluio com as agências de inteligência ocidentais. Mas muitos outros especialistas militares russos chegaram a conclusões semelhantes.

Não é coincidência o fato de que o ex-presidente Putin constantemente apontava que os gastos militares americanos eram 25 vezes maiores do que os da Rússia, diz Alexei Arbatov, diretor Centro para Segurança Internacional de Moscou. Isto, segundo Arbatov, é o motivo para os americanos terem 1,5 milhão de soldados e "forças armadas de uma qualidade que teremos que nos esforçar muito para igualar. Mas só somos capazes de financiar forças armadas com não mais que 600 mil soldados". Segundo Arbatov, a burocracia militar russa é um obstáculo para transformar as forças armadas em uma força menor, porém mais eficaz. O lema da liderança militar, segundo Arbatov, pode ser resumido desta forma: é melhor ser grande do que eficaz.

O fato de Putin, ao longo de seus oito anos na presidência, nunca ter se cansado de celebrar o ressurgimento do exército russo, melhorou a posição do Kremlin junto aos russos (e gerou novas encomendas para a corrupta indústria de armas russa). Mas a propaganda de Putin saiu pela culatra no exterior, porque beneficiou o país rival da Rússia, os Estados Unidos.

Citando os esforços de Moscou para se modernizar, o presidente George W. Bush pediu ao Congresso americano a aprovação de US$ 696 milhões em gastos militares para o próximo ano fiscal. Mas o problema com este argumento é que a ameaça russa é apenas uma desculpa barata.

Por anos, a Marinha americana vem atualizando seus mísseis balísticos intercontinentais Trident II instalados em seus submarinos. As forças armadas americanas também planejam substituir todas suas 5.045 ogivas nucleares ainda ativas até 2012 - um programa inacreditavelmente caro. Seria o primeiro de seu tipo em 20 anos, e os críticos questionam a necessidade deste programa. E o uso por Washington de um míssil para derrubar um satélite espião supostamente fora de controle, em fevereiro, alimentou suspeitas, não apenas em Moscou, de que os americanos nunca abandonaram de fato seu programa "Guerra nas Estrelas".

Quando um país se vê como a única superpotência restante, ele espera poder agir como bem entende. Os Estados Unidos se retiraram do Tratado de Mísseis Antibalísticos, que limitava a instalação de sistemas de defesa antimísseis. O Tratado START-1, que reduz o número de armas nucleares de longo alcance, expira no próximo ano, e outro tratado russo-americano para redução do potencial estratégico ofensivo expirará em 2012. A proposta de Moscou para substituir o START-1 por um novo tratado até o momento não obteve resposta de Washington. Quando todos estes tratados tiverem expirado, não haverá mais nenhum meio de monitorar as atividades militares do inimigo, incluindo as inspeções conjuntas, que ajudaram a reduzir a desconfiança mútua no passado.

Mas os russos estão presos em um círculo vicioso. Para forçar Washington a concordar com novos programas de desarmamento, os russos primeiro devem convencer os americanos a levá-los a sério. O problema é que Washington não está mais impressionada com o potencial dissuasor de Moscou. Até o final de 2012, ambas as potências terão entre 1.700 e 2.200 ogivas nucleares restantes em seus arsenais. Mas os russos sabem que até lá não mais que 1.000 ogivas permanecerão úteis.

Os russos se sentem enganados
Naturalmente, uma potência que vê a si mesma como cada vez mais vulnerável interpretará os avanços de seu rival como uma provocação. Os planos dos Estados Unidos de instalar sistemas de defesa antimísseis na Polônia e República Tcheca, ambos países próximos da fronteira ocidental da Rússia, foram recebidos com consternação em Moscou, assim como os avanços da Otan na direção da Rússia. Por toda a Europa, do Mar Negro ao Báltico, Moscou agora está estrategicamente isolada e marginalizada.

Os especialistas militares em Moscou sabem muito bem que os mísseis americanos na Polônia serão incapazes de interceptar os mísseis intercontinentais russos, tanto em termos de alcance quanto trajetória. O sistema não representa uma ameaça direta, diz Arbatov, acrescentando que alegações do contrário pelos líderes militares russos são pura propaganda. Mas elas são mais do que isso. O Kremlin foi capaz de usar a discussão em torno do escudo antimísseis americano como uma alavanca bem-vinda para fortalecer sua posição em futuras negociações de controle de armas.

Mas por que então ele está se retirando de um acordo como o FCE, que visa criar mais confiança na Europa, especialmente quando Moscou já se encontra "cronicamente incapaz" de esgotar as cotas de tanques e artilharia "às quais tem direito segundo este tratado", como escreve o Instituto de Estratégia Nacional de Moscou?

Porque os russos se sentem enganados. E porque a Otan se recusa a ratificar o Tratado FCE "modificado" porque Moscou ainda não esvaziou o depósito de armas obsoletas na pequena república de Moldova. Quase 20 anos após a queda do Muro de Berlim, as armas nos novos países membros da Otan ainda são contadas segundo os limites do Tratado FCE imposto ao atualmente datado "grupo de países do Leste". Enquanto isso, a aliança ocidental conta com uma verdadeira vantagem em termos de forças armadas convencionais.

Os russos consideram esta situação "absurda" e até mesmo cientistas políticos ocidentais concordam que é hora da Otan mudar sua posição. Em vez de buscar uma solução negociada, em vez de tranqüilizar o Kremlin de que sua intenção não é conter ou discriminar a Rússia, os críticos dizem que a Otan se colocou contra as cordas. Moscou não permite mais a entrada de inspetores militares estrangeiros no país desde dezembro passado, e parou de notificar o restante da Europa a respeito de movimentos de tropas e exercícios militares.

'Nossa liderança tem ignorado a ameaça chinesa'
A primavera chegou tarde neste ano a Chebarkul, uma pequena cidade no limite sul dos Montes Urais. Em maio, quando o gelo mal tinha derretido nos muitos lagos da área, os agricultores locais, seguindo o velho costume, botaram fogo na relva e ao longo das margens de seus campos. Nuvens espessas de fumaça logo encobriam as florestas cinzentas de bétulas, que ainda nem contavam com folhas novas, chegando até a capital provincial, Chelyabinsk, a 80 quilômetros de distância. Andrei Chabola também realizou a queimada em seus campos, mesmo que apenas para seu tanque tivesse um campo com visão livre para praticar tiro ao alvo e não incendiar a relva com sua munição.

Chabola é um coronel de 37 anos e já um vice-comandante da 34ª Divisão de Fuzileiros Motorizada russa. Ele é totalmente russo, alto, com modo de andar pesado, de passos largos e um nariz marcante em um rosto com bochechas vermelhas. Ele está em pé na plataforma da torre de controle olhando para um campo de treinamento de tanques, com o quartel de Chebarkul atrás dele. Vários tanques T-72 estão em processo de tentar cruzar valas e pontes a 45 km/h.

"Camarada coronel, obstáculo para tanque superado, sem incidentes, temperatura do óleo normal", informa um dos pilotos, gaguejando de empolgação. "Esplêndido", responde graciosamente o comandante. O 295º Regimento Cossaco está em treinamento.

Os homens que dirigem estes tanques não são mais cidadãos que entraram para as forças armadas devido ao serviço militar obrigatório. O Exército russo já começou a treinar soldados profissionais em Chebarkul, parte de uma crescente carreira militar cujo número já chega a 100 mil em todo o país. Este número é resultado de um acordo entre a liderança do exército e o Kremlin, que pede por mais forças efetivas desde as lições amargas da guerra na Chechênia.

Ninguém nesta base faz segredo de sua convicção de que a decisão tomada pelo topo é um grande erro. "Soldados contratados estão nisso pelo dinheiro, não pela pátria", resmungou um coronel. Ele prefere não ser identificado pelo nome. "A única motivação deles é a falta de perspectivas. Eles vêm das piores famílias."

Com dois homens do quartel-general da divisão em Yekaterinburg visitando a base, dificilmente alguém está disposto a expressar essas críticas em voz alta. As forças armadas e o establishment político já estão em atrito. Em Moscou, o chefe do Estado-Maior das forças armadas foi demitido no início de junho porque considerava as políticas do ministro da Defesa civil, um ex-comerciante de móveis, insanas e perigosas. Uma escola de treinamento para tanques também foi fechada em Chelyabinsk, e a profissão de oficial "não vale nada atualmente", diz o coronel. Mas os problemas de idade do Exército russo ainda não foram resolvidos. Segundo o coronel, as famílias de 122 mil oficiais não têm residência fixa, e um tenente "cairia na ruína em Moscou" com os 12 mil rublos, ou cerca de US$ 500, que recebe de salário.

Mas quando o assunto se volta para o Ocidente e a vodca ucraniana oleosa começa a correr no refeitório dos oficiais, os homens na base de Chebarkul começam a expressar suas opiniões em voz alta e em uma só voz. "Os americanos estão reforçando seus arsenais; eles estão nos cercando na Geórgia e na Ucrânia", brada Chabola, o vice-comandante da divisão. "Eles querem nos destruir." E não soa "como uma declaração de guerra", diz outro oficial, quando Madeleine Albright, a ex-secretária de Estado americana, diz publicamente que o fato da Sibéria, com seus recursos naturais imensos, pertencer exclusivamente à Rússia é uma das maiores injustiças do mundo?

Apesar de Albright ter repudiado o suposto comentário há muito tempo, a alma russa profundamente humilhada dificilmente reconhecerá as negações dela. Mas até mesmo os russos sabem que o mundo, 20 anos após o fim da Guerra Fria, se tornou um lugar diferente. Eles sabem que o número de ogivas nucleares que o país possui não são mais o fator decisivo, que um ataque surpresa pela Otan ou uma guerra entre países na Europa é altamente improvável e que, por estes motivos, simplesmente contar tanques e obuses não faz mais muito sentido.

Mas qual é a missão das forças armadas russas, para que conflitos potenciais a Rússia deve estar preparada? Até mesmo o coronel Chabola não acredita que a Otan ainda seja a principal adversária potencial do país. Após a queda do muro de Berlim, Chabola serviu por dois anos na cidade alemã oriental de Neustrelitz.

Moscou está obcecada com sua arqui-rival
Mas então ele foi transferido para Blagoveshchensk, uma cidade na região de Amur, no extremo oriente russo, diretamente na fronteira com a China. "Este é o local onde mais e mais chineses estão ingressando em nosso território", ele diz. "A Sibéria é grande e há muito poucas pessoas que ainda vivem lá atualmente." Para ser exato, a densidade populacional no lado russo da fronteira é de dois habitantes por quilômetro quadrado, em comparação a 103 nas províncias chinesas vizinhas.

Os chineses também foram a Chebarkul no ano passado, para participar de uma manobra chamada "Missão de Paz 2007". Ao todo, 1.400 soldados e oficiais do Exército Popular, assim como 300 soldados da aeronáutica, viajaram 10 mil quilômetros até esta pequena cidade russa nos Montes Urais para passar nove dias, juntamente com a divisão de Chabola, simulando a tomada de uma cidade ocupada por "terroristas". O exercício foi patrocinado pela Organização para Cooperação de Xangai, que foi fundada em 1996 para limitar a influência americana na Ásia.

"Os chineses trouxeram sua própria tecnologia de combate, armaram sua própria cidade de tendas separada e gravaram tudo em vídeo, de cada tanque russo aos potes de sopa em nossa cantina", diz o coronel. "Mas sempre que um de nossos homens queria tirar uma fotos deles, os seguranças deles intervinham imediatamente."

Isto não soa exatamente como uma amizade entre os povos soviético e chinês que ambos os lados insistiam existir no passado. Desde que conflitos de fronteira entre a China e a União Soviética ocorreram no Rio Ussuri em 1969, os russos nutrem profunda suspeita de Pequim. Os oficiais de Chabola são francos a respeito de quem acham que a Rússia deveria realmente temer: "os chineses". Um dos oficiais diz ter lido em algum lugar que Pequim concordou em não agir a respeito de suas disputas territoriais com a Rússia até 2015, "mas o que acontecerá depois disso?"

Estes temores, como são manifestados de forma simples e clara pelos soldados nesta base, são expressas apenas em termos mais educados nas análises dos cientistas políticos de Moscou. Eles escrevem que o Kremlin e a liderança militar ainda vêem o mundo pelo prisma das relações com os Estados Unidos, e que Moscou está obcecada por um desejo patológico de igualdade com seus arqui-rivais e não tem um entendimento realista dos futuros riscos militares. Segundo os especialistas do Instituto de Estratégia Nacional, "a suposição de que a Otan é nossa principal adversária potencial parece um tanto duvidosa atualmente".

A Rússia deveria ficar de olho em Pequim, diz Stanislav Belkovsky, enquanto está sentado no restaurante Akademiya e mexe taciturnamente seu cappuccino. Segundo Belkovsky, tanto a propaganda da China quanto seu desenvolvimento militar indicam que o país se expandiria primeiramente na direção da Rússia.

"O que nos espanta", diz Belkovsky, o estrategista que é tão impopular em casa, "é que nossa liderança simplesmente ignorou a ameaça chinesa até agora".

Fonte: Der Spiegel

domingo, 29 de junho de 2008

General Paiva afirma que a fronteira não pode ficar "a reboque" de índios !

A política indígena do governo brasileiro, complacente com a atuação de ONGs estrangeiras na fronteira amazônica, ameaça a soberania nacional. A afirmação é do General-de-brigada Luiz Eduardo Rocha Paiva, comandante de 2004 a 2006 da escola que prepara os oficiais superiores do Exército (ECEME).

Paiva, 56, endossou em entrevista à Folha as críticas do General Augusto Heleno, responsável pelo CMA (Comando Militar da Amazônia), quando eclodiu o conflito entre arrozeiros e índios na reserva Raposa/Serra do Sol (Roraima).

"Eu acho que na faixa de fronteira tem que ter cidades, vilas, comércio. A terra indígena impede o surgimento. Somos 190 milhões de habitantes. Não podemos ficar a reboque de 700 mil [índios]", disse.

O General acha que, como estão pouco povoadas, as reservas na área de fronteira podem virar territórios autônomos: "Se o brasileiro não-índio não pode entrar nessas reservas, daqui a algumas décadas a população vai ser de indígenas que, para mim, são brasileiros, mas para as ONGs não são. Eles podem pleitear inclusive a soberania".

Paiva afirma que o Estado "não se faz presente". "A Amazônia não está ocupada. É um vazio. Alguém vai vir e vai ocupar. Se o governo não está junto com as populações indígenas, tem uma ONG que ocupa. As ONGs procuram levar as populações indígenas a negar a cidadania brasileira. Elas atuam sem o controle do Estado brasileiro. Ligadas a interesses estrangeiros, são um perigo."

O risco maior, segundo o General, está na região entre Roraima e Amapá, devido à influência de Inglaterra (sobre a Guiana), França (Guiana Francesa) e Holanda (Suriname) e aos interesses dos EUA. "Eu acho que podemos perfeitamente caracterizar a ameaça e dizer o nome desses atores."

Na fronteira com a Venezuela e com a Guiana, na região da Raposa/Serra do Sol, o Exército mantém pelotões especiais, mas o General diz que isso de pouco adianta. "O pelotão de fronteira não defende nada. É preciso uma ação de presença importante, mas para vivificar. Vivificar com gente brasileira, inclusive com o índio."

Paiva, que passou à reserva em julho passado, disse que "a cobiça pelas riquezas" da Amazônia é o assunto principal da ECEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), que fica no Rio de Janeiro.

"Quando eu cheguei ao comando da escola, já era o assunto mais importante. Eu continuei estimulando para que o assunto mais importante, a ser estudado, fosse a Amazônia em relação à ameaça", afirmou.

As idéias do General ainda circulam no meio militar. Ele deve publicar em breve artigo sobre ameaça à Amazônia na revista "Idéias em Destaque" do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Em 2006, o General publicou um artigo na revista da ECEME sobre "vulnerabilidade, cobiça e ameaça" à Amazônia. O material foi republicado na edição de março e abril na "Military Review", edição brasileira.

Fonte: Folha de S.Paulo

sábado, 28 de junho de 2008

A turminha continua a mesma !! Palocci deve voltar ao desgoverno do Brasil !

Lula prepara a volta de Palocci

Assustado com o rumo da economia, o presidente espera que o Supremo arquive a denúncia contra o ex-ministro para reconduzi-lo ao governo federal

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aposta todas as fichas na rejeição da denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP) pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para trazê-lo de volta à pasta, cargo que ocupou com brilhantismo, segundo avaliação de Lula. Palocci é acusado de quebrar o sigilo funcional do caseiro Francenildo Costa, fato ocorrido em 2006, episódio que o derrubou do Ministério da Fazenda. Eleito deputado federal, o ex-ministro é o único dos ex-auxiliares que continua sendo interlocutor de Lula.

A volta de Palocci à Fazenda é dada como certa se o caso do caseiro for “zerado”. A alta da inflação assustou o presidente Lula, apesar dos discursos otimistas, e enfraqueceu o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, que não conseguiu domá-la. A responsabilidade de controlar a inflação acabou a cargo do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o que não agrada ao presidente da República por causa da alta dos juros. Lula teme cair numa armadilha: a inflação desgasta o governo entre a população de baixa renda; o remédio — elevar os juros — acaba tendo o mesmo efeito colateral.

Presidente da comissão especial que examina a reforma tributária na Câmara, Palocci está reconstruindo sua imagem. Evita excesso de exposição na mídia e confrontos políticos, mas atua com desenvoltura nos bastidores. É o principal interlocutor da Câmara na equipe econômica e no mundo empresarial. Foi responsável pela reaproximação do presidente Lula com a ex-ministra do Turismo Marta Suplicy, sendo atribuída aos apelos do ex-ministro a interferência direta de Lula na aliança do PT com o bloquinho (PSB, PDT e PCdoB) em São Paulo.

Ministério
O resgate de Palocci , porém, não depende só de torcida. Fracassaram, por exemplo, as gestões para que o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, suspendesse o processo contra Palocci. O ex-ministro da Fazenda é acusado de ordenar diretamente ao então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, que violasse o sigilo bancário do caseiro, depois que Francenildo confirmou publicamente as visitas de Palocci a uma casa alugada em Brasília onde seus assessores Rogério Buratti e Vladimir Poleto se reuniam com lobistas.

A denúncia contra Palocci será relatada pelo ministro Gilmar Mendes, que a colocou na pauta antes de assumir o cargo de presidente do Supremo Tribunal Federal. A defesa de Palocci, a cargo do advogado José Roberto Batochio, está muito ativa e conta com o reforço do ex-deputado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, muito respeitado por alguns ministros do STF. O fato que pode favorecer o ex-ministro da Fazenda é um depoimento de Buratti, ex-secretário de Governo na primeira gestão de Palocci como prefeito de Ribeirão Preto (1993-1994), que retirou em cartório as acusações feitas em agosto de 2005 contra o ex-ministro, inclusive as de que Palocci recebia propina mensal de R$ 50 mil da empreiteira Leão Leão. Ocorre que o relatório do delegado federal Rodrigo Carneiro contra Palocci no caso do caseiro é considerado muito consistente.

Fonte: Correio Braziliense

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Qual o significado da palavra Pacóvio ?


Do Dicionário Aurélio: 1. Que diz ou pratica tolices; sem inteligência ou sem juízo. 2. Tonto, simplório, ingênuo. 3. Boquiaberto, pasmado.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A resposta de Ustra

Coronel acusado de comandar a tortura no DOI paulista diz que Romeu Tuma sabia de tudo e pede testemunho dos atuais comandantes militares

Alvo de uma ação do Ministério Público que tenta obrigá-lo a arcar até com as despesas da União com indenização de presos políticos, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra já montou sua defesa num possível processo. Ustra foi comandante do DOI-CODI paulista entre 1970 e 1974, período em que pelo menos 60 presos políticos perderam a vida sob tortura e centenas foram submetidos a formas diversas de violência e maus tratos.

Para defender-se, Ustra faz um apelo genérico e uma convocação específica. Ele quer que o atual senador Romeu Tuma seja ouvido como testemunha de sua defesa. Num texto de 31 páginas, ao qual ÉPOCA teve acesso com exclusividade, Ustra diz que Romeu Tuma “acompanhou e viveu a situação de violência e o trabalho do DOI, já que, como delegado da Polícia Civil, era o elemento de ligação entre o Comando do II Exército e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgão no qual estava lotado.” Ustra constituiu um advogado para orientá-lo no processo, Paulo Esteves.

Além do senador Romeu Tuma, Ustra convoca quatro oficiais da ativa do Exército para servirem com suas testemunhas. Ele não está falando de baixas patentes, mas do próprio Comandante do Exército, Enzo Martins Peri; do Comandante Militar do Sudeste, onde funcionava o DOI paulista; do Chefe do Estado Maior do Sudeste e do Chefe do Centro Inteligência do Exército (CIEx). Referindo-se a oficiais de gerações posteriores, que fizeram carreira após a democratização, Ustra escreve que “tais militares, ainda que jovens naquela época, vivenciaram ou acompanharam a violência daquela quadra conturbada.”

Com esse pedido, a investigação sobre o passado da ditadura pode transformar-se em confusão e constrangimento no presente.

O argumento de Ustra contra Tuma é que o então delegado assistiu de perto aos trabalhos dos órgãos de repressão que prenderam e eliminaram adversários do regime, em particular integrantes de organizações armadas. No texto de sua defesa, ele implica o delegado no desaparecimento de presos políticos, ao alegar que é possível localizar os restos mortais destes militantes a partir de inquéritos realizados pelo DOPS paulista. A escolha de Tuma não é casual.

Filiado ao PTB, o senador integra a base parlamentar do governo Lula, de onde têm partido sinais de estímulo à reabertura de investigações dos crimes ocorridos durante a ditadura militar e também sobre o papel de Ustra à frente do DOI.

Nos anos finais do regime militar, Tuma foi o delegado que, cumprindo ordens do Planalto, manteve o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva sob prisão, acusado de crime definido na Lei de Segurança Nacional. Lula estava preso quando sua mãe, muito doente, faleceu. Tuma permitiu que Lula saísse da prisão para acompanhar o enterro. Entre amigos do presidente da República, é comum dizer que esse gesto marcou uma primeira aproximação entre o delegado e o sindicalista.

Como delegado da Polícia Civil, Tuma teve um papel que ainda não foi inteiramente esclarecido nos anos de chumbo. Oficiais da área de informações já acusaram Tuma de ter atuado como elemento de ligação entre o DOPS paulista e a área militar. Ao colocar o nome do delegado e hoje senador num processo em que é chamado a prestar contas sobre o passado, situação que jamais ocorreu no país, Ustra faz uma clássica manobra diversionista, procurando abrigo na sombra de Romeu Tuma, hoje um político prestigiado, que fez a transição do regime militar para a democracia civil sem maiores manchas na biografia.


ÉPOCA procurou ouvir o senador na noite desta quarta-feira (25/06/2008), fazendo sucessivos pedidos à sua assessoria de imprensa. Não havia obtido resposta até o fechamento desta reportagem. As acusações de Ustra, colocado em posição defensiva em função de um ação judicial, devem ser examinadas com cautela, cabendo inclusive a pergunta: por que são feitas agora, três décadas depois dos fatos terem ocorrido? Só futuras investigações e esclarecimentos poderão dizer o que há de verdade nestas afirmações. Tuma ocupou uma posição chave na máquina policial, sob o regime militar. Cumpria tarefas de inteligência na investigação das organizações de esquerda e até hoje nunca foi denunciado por envolvimento em tortura ou assassinatos.

Em conversas privadas, Ustra acusa Tuma de comparecer praticamente todos os dias ao DOI e de ter conhecimento de tudo o que acontecia ali. Conforme o Coronel, o delegado acompanhava todos os serviços – no próprio local.

Ustra sustenta que nunca participou de torturas nem autorizou qualquer tipo de violência contra presos políticos. Essa alegação é negada pelo depoimento de dezenas de presos políticos do período. O Coronel afirma que o então delegado dava cobertura legal às prisões efetuadas pelo DOI. Em suas palavras, se alguém foi “estraçalhado” no porão militar, Tuma também viu tudo.

Em sua defesa, Ustra emprega outro argumento esperado nessas circunstâncias: “cumpri, rigorosamente, as ordens emanadas de meus superiores.” Eles foram, conforme o texto, o Presidente Emílio Garrastazu Médici e outros sete generais – todos já falecidos. O Coronel também afirma que: “tenho a certeza de que esses homens, com sua estirpe e com seu passado, se vivos fossem não me deixariam só nesta hora em que os revanchistas de plantão, por vingança, querem colocar-me em julgamento”.

Fonte: Revista Época

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LEGENDA:

Presos Políticos = assaltantes de banco e terroristas da década de 60, atualmente elevados a categoria de "vítimas", merecedores de indenização da União por ações criminosas praticadas sob a desculpa de "luta política", atuais revanchistas e corruptos vermelhos do PT e outros P...da política nacional.

Lula = oportunista de plantão e atual Presidente da República.

Romeu Tuma = Ex-Delegado de Polícia Civil e atual Senador da República integrante da base parlamentar do Governo LULA.

Torturadores = militares em serviço que combateram os assaltantes e terroristas das décadas de 60 e 70, hoje perseguidos políticos do Governo Lula.

Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra = Ex-Comandante do DOI-CODI e atual vítima de perseguição política e revanchismo contra os militares, responsáveis pelo Governo Militar que impediu que o Brasil virasse uma ditadura comunista nos moldes de Cuba.

Presidente Emílio Garrastazu Médici = Ex-Presidente da República e um grande chefe político deste país que não merece de forma alguma ter seu nome citado numa reportagem tendenciosa e mal intencionada como esta da Revista Época.