segunda-feira, 14 de julho de 2008

Greenhalgh, ex-deputado federal do PT, recebeu dinheiro de Dantas

Greenhalgh recebeu R$ 650 mil
PF relaciona dinheiro a Dantas e vê indícios de 'proventos do crime'

O advogado e ex-deputado do PT Luiz Eduardo Greenhalgh recebeu R$ 650 mil que a Polícia Federal relaciona à organização criminosa liderada pelo banqueiro Daniel Dantas. Em conversa interceptada às 12h13 do dia 4 de abril de 2008, o petista discute com um homem identificado como Carlos Amarante como investir seu dinheiro. Em seguida, ele revela, segundo os federais, que recebeu "honorários de R$ 650 mil". Amarante fornece uma conta no HBS Pactual para que a quantia seja depositada.

"Há indícios de que esses valores sejam, na verdade, proventos do crime", afirma o relatório da operação assinado pelo delegado Protógenes Queiroz.

As interceptações feitas pela PF mostram que, desde dezembro de 2007, pelo menos, Greenhalgh já fazia lobby para Dantas dentro do governo federal e de outras administrações petistas, como o governo estadual do Pará.

No dia 12 de dezembro, o banqueiro conversa com sua irmã Verônica Dantas sobre possíveis ações contra o Opportunity. No diálogo, eles revelam que o petista contou a Guilherme Henrique Sodré, o Guiga, sócio da empresa GLT Comunicações, que "estão armando contra".

Na conversa, Dantas e Verônica demonstram confiar nas informações do advogado. Eles chamam Greenhalgh pelo seu codinome no grupo, segundo a PF: Gomes. De acordo com Dantas, "Gomes não é alarmista".

Além de Greenhalgh, outro ex-deputado do PT, Sigmaringa Seixas, também foi mobilizado para ajudar o banqueiro.

É o que provam, aponta a PF, as conversas entre os dois petistas. No dia 16 de maio, às 11h55, Greenhalgh telefonou para Seixas e disse: "Estou convencido: para o que eles querem, você é o melhor, pelo menos pra conversar, pra sentir, pra ver uma estratégia de aproximação."

Mais adiante, Greenhalgh revela suas intenções em relação ao sócio-fundador do Opportunity. Ele demonstra querer "reabilitar" Dantas dentro do governo e do PT.

A conversa ocorreu pouco depois de o banqueiro fechar a venda de sua parte na Brasil Telecom (R$ 985 milhões) à Oi. "Porque o cara agora vai pegar o que ele vendeu e vai cantar noutro lugar", diz o petista. "Ele tá começando outra vida. Vamos ver. Se fosse na época da União Soviética, tinha que reabilitar esse cara", afirma. Greenhalgh conclui, no entanto, que seu desejo dificilmente se realizará e explica o motivo: "Ele (Dantas) faz muita bobagem, mas, se a gente puder evitar que ele seja constrangido e tal, a solução é essa."

Para o delegado Protógenes, não há dúvidas de que os serviços prestados por Greenhalgh passam longe da assessoria jurídica. "Em verdade, no contexto geral, ele seria o homem de ligação entre pessoas do Poder Executivo Federal, empresas estatais e Daniel Dantas", afirma.

Além disso, o grupo tentou "enfiar" uma emenda no meio da Medida Provisória 412, que tratava da prorrogação do Reporto, o Regime Tributário para Incentivo à Modernização e Ampliação da Estrutura Portuária. O grupo de Dantas tem empresas na área portuária por meio da Santos Brasil S.A.

Em 2003, o banqueiro foi beneficiado pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), que ignorou ordem do Ministério dos Transportes para suspender a concessão de portos no País. A decisão abriu caminho para a Santos Brasil assumir operações de área de 180 mil metros quadrados do porto.

A conversa sobre o Reporto ocorreu entre Greenhalgh e o publicitário Sodré, o Guiga, que é o responsável por contatos de Dantas com parlamentares, de acordo com a polícia.

Fonte: Estado de S. Paulo

sábado, 12 de julho de 2008

Alborghetti detonando Gilmar Mendes - Mais uma piada do Brasil !!

Os verdadeiros 'canalhas' e 'gângsters' do Brasil usam toga !


Delegados da PF protestam contra decisão de soltar Daniel Dantas

A ADPF (Associação de Delegados da Polícia Federal) divulgou uma nota à imprensa em que critica a decisão do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Gilmar Mendes, de conceder liminar na tarde desta sexta-feira para suspender a prisão preventiva do banqueiro Daniel Dantas.

O dono do banco Opportunity deixou a carceragem da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo na noite de hoje. Dantas estava preso preventivamente desde ontem à tarde por decisão da Justiça Federal em São Paulo.

Ele já havia sido preso na terça-feira (08/07/2008), durante a Operação Satiagraha da PF, mas foi solto ontem de madrugada depois que o presidente do STF aceitou o primeiro pedido de liberdade por considerar sua prisão "desnecessária".

Segundo a ADPF, a decisão de Mendes "desprezou os esforços" da PF, do Ministério Público Federal e da Justiça Federal. Os delegados também protestam contra o "desvio" do foco da operação para a utilização de algemas, e negam ter havido vazamentos de informações da Polícia Federal.

"É inadmissível que à Polícia Federal [...] seja atribuída a pecha de 'canalhas' e 'gângsters'", afirma a ADPF, em referências às recentes declarações do ministro Gilmar Mendes.

Confira a íntegra da nota:

"Nota da Associação dos Delegados de Polícia Federal sobre a recente decisão do ministro Gilmar Mendes

A Associação dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) manifesta sua indignação quanto à nova decisão do ministro Gilmar Mendes que determinou a soltura do Senhor Daniel Valente Dantas, em desacordo com a jurisprudência dominante, que autoriza a prisão preventiva no caso de prejuízo à instrução criminal, e com supressão de instâncias do Poder Judiciário.

Referida decisão desprezou o esforço desenvolvido pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal, bem como a criteriosa análise da legalidade e adequação realizadas pelo Juízo de primeira instância, quando da determinação da prisão preventiva do Senhor Daniel Valente Dantas.

Refutamos, com veemência, que o foco principal da exitosa operação desencadeada pelos órgãos já mencionados, seja desviado para o uso de algemas quando da efetivação das prisões, imputando-se à Polícia Federal o vazamento de informações e pseudo-monitoramentos irregulares que não se confirmaram e cuja apuração nunca foi requisitada pelas autoridades hipoteticamente vitimadas.

É inadmissível que à Polícia Federal, responsável por trabalhos conjuntos com o Ministério Público e o Poder Judiciário, norteados para a desejada e tempestiva mudança de um sistema historicamente focado à prisão de criminosos desassistidos, seja atribuída a pecha de "canalhas" e "gângsters".

A contrário senso, investigados pelo desvio de bilhões de reais dos cofres públicos, inclusive com a tentativa de suborno de Delegado de Polícia Federal, são tratados com beneplácito."

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Gilmar Mendes 2 x 1 Fausto De Sanctis - 2° Tempo do Jogo da Corrupção

130 juízes federais protestam contra Gilmar Mendes

Depois dos procuradores se manifestarem contra o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, agora 130 juízes federais de São Paulo e Mato Grosso do Sul divulgaram carta de apoio ao juiz federal da 6ª Vara, Fausto Martin De Sanctis, responsável por expedir o pedido de prisão do banqueiro Daniel Dantas.

Sanctis foi acusado nesta sexta-feira por Gilmar Mendes de mandar a Polícia Federal monitorar o gabinete do ministro. No entanto, uma varredura no STF não encontrou escutas no local. Mendes concedeu hoje, pela segunda vez, liminar para suspender a decisão da prisão de Dantas, pedida por Sanctis.

No texto, os juízes demonstram "indignação com a atitude" de Gilmar Mendes, pelo ministro ter determinado o encaminhamento de cópias da decisão do juiz Fausto De Sanctis sobre o habeas corpus que soltou Dantas para o Conselho Nacional de Justiça, o Conselho da Justiça Federal e a Corregedoria Geral da Justiça Federal da Terceira Região.

"Não se vislumbra motivação plausível para que um juiz seja investigado por ter um determinado entendimento jurídico. Ao contrário, a independência de que dispõe o magistrado para decidir é um pilar da democracia e princípio constitucional consagrado. Ninguém nem nada pode interferir na livre formação da convicção do juiz, no direito de decidir segundo sua consciência, pena de solaparem-se as próprias bases do Estado de Direito", diz a carta.

Leia a íntegra da carta:

MANIFESTO DA MAGISTRATURA FEDERAL DA 3ª REGIÃO

Nós, juízes federais da Terceira Região abaixo assinados, vimos mostrar, por meio deste manifesto, indignação com a atitude de Sua Excelência o Ministro Gilmar Mendes, Presidente do Supremo Tribunal Federal, que determinou o encaminhamento de cópias da decisão do juiz federal Fausto De Sanctis, atacada no Habeas Corpus n. 95.009/SP, para o Conselho Nacional de Justiça, ao Conselho da Justiça Federal e à Corregedoria Geral da Justiça Federal da Terceira Região.

Não se vislumbra motivação plausível para que um juiz seja investigado por ter um determinado entendimento jurídico. Ao contrário, a independência de que dispõe o magistrado para decidir é um pilar da democracia e princípio constitucional consagrado. Ninguém nem nada pode interferir na livre formação da convicção do juiz, no direito de decidir segundo sua consciência, pena de solaparem-se as próprias bases do Estado de Direito.

Prestamos, pois, nossa solidariedade ao colega Fausto De Sanctis e deixamos clara nossa discordância para com este ato do Ministro Gilmar Mendes, que coloca em risco o bem tão caro da independência do Poder Judiciário.

Até às 18 horas de hoje, 11 de julho de 2008, os Juízes Federais abaixo identificados manifestaram-se conforme o presente manifesto, sem prejuízo de novas adesões.

1 - Carlos Eduardo Delgado
2 - José Eduardo de Almeida Leonel Ferreira
3 - Katia Herminia Martins Lazarano Roncada
4 - Raecler Baldresca
5 - Rubens Alexandre Elias Calixto
6 - Claudia Hilst Menezes
7 - Edevaldo de Medeiros
8 - Denise Aparecida Avelar
9 - Taís Bargas Ferracini de Campos Gurgel
10 - Giselle de Amaro e França
11 - Erik Frederico Gramstrup
12 - Angela Cristina Monteiro
13 - Elídia Ap Andrade Correa
14 - Decio Gabriel Gimenez
15 - Renato Luis Benucci
16 - Marcelle Ragazoni Carvalho
17 - Silvia Melo da Matta
18 - Isadora Segalla Afanasieff
19 - Daniela Paulovich de Lima
20 - Otavio Henrique Martins Port
21 - Cristiane Farias Rodrigues dos Santos
22 - Claudia Mantovani Arruga
23 - Paulo Cezar Neves Júnior
24 - Venilto Paulo Nunes Júnior
25 - Rosana Ferri Vidor
26 - João Miguel Coelho dos Anjos
27 - Fabiano Lopes Carraro
28 - Rosa Maria Pedrassi de Souza
29 - Sergio Henrique Bonachela
30 - Rogério Volpatti Polezze
31 - Wilson Pereira Júnior
32 - Nilce Cristina Petris de Paiva
33 - Cláudio Kitner
34 - Fernando Moreira Gonçalves
35 - Noemi Martins de Oliveira
36 - Marilia Rechi Gomes de Aguiar
37 - Gisele Bueno da Cruz
38 - Gilberto Mendes Sobrinho
39 - Veridiana Gracia Campos
40 - Letícia Dea Banks Ferreira Lopes
41 - Lin Pei Jeng
42 - Luiz Renato Pacheco Chaves de Oliveira
43 - Fernando Henrique Corrêa Custodio
44 - Leonardo José Correa Guarda
45 - Alexandre Berzosa Saliba
46 - Luciana Jacó Braga
47 - Marisa Claudia Gonçalves Cucio
48 - Carla Cristina de Oliveira Meira
49 - José Luiz Paludetto
50 - Carlos Alberto Antonio Júnior
51 - Márcia Souza e Silva de Oliveira
52 - Maria Catarina de Souza Martins Fazzio
53 - Nilson Martins Lopes Júnior
54 - Fabio Ivens de Pauli
55 - Mônica Wilma Schroder
56 - Louise Vilela Leite Filgueiras Borer
57 - José Tarcísio Januário
58 - Valéria Cabas Franco
59 - Marcelo Freiberger Zandavali
60 - Rodrigo Oliva Monteiro
61 - Ricardo de Castro Nascimento
62 - Luciane Aparecida Fernandes Ramos
63 - José Denílson Branco
64 - Paulo César Conrado
65 - Alexandre Alberto Berno
66 - Luciana Melchiori Bezerra
67 - Mara Lina Silva do Carmo
68 - Raphael José de Oliveira Silva
69 - Anita Villani
70 - Higino Cinacchi Júnior
71 - Maria Vitória Maziteli de Oliveira
72 - Márcio Ferro Catapani
73 - Silvia Maria Rocha
74 - Luís Gustavo Bregalda Neves
75 - Denio Silva The Cardoso
76 - Fletcher Eduardo Penteado
77 - Leonardo Pessorrusso de Queiroz
78 - Carlos Alberto Navarro Perez
79 - Renato Câmara Nigro
80 - Ronald de Carvalho Filho
81 - Luiz Antonio Moreira Porto
82- Hong Kou Hen
83- Pedro Luís Piedade Novaes
84- Flademir Jerônimo Belinati Martins
85- Luís Antônio Zanluca
86- Omar Chamon
87- Sidmar Dias Martins
88- João Carlos Cabrelon de Oliveira
89- Antonio André Muniz Mascarenhas de Souza
90- Marilaine Almeida Santos
91-Alessandro Diaféria
92- Paulo Ricardo Arena filho
93- Hélio Egydio de Matos Nogueira
94- Ricardo Geraldo Rezende Silveira
95 - Cláudio de Paula dos Santos
96 - Leandro Gonsalves Ferreira
97 - Caio Moysés de Lima
98 - Ronald Guido Junior
98 - Clécio Braschi
99 - Roberto da Silva Oliveira
100 - Vanessa Vieira de Mello
101 - Ivana Barba Pacheco
102 - Simone Bezerra Karagulian
103 - Gabriela Azevedo Campos Sales
104 - Kátia Cilene Balugar Firmino
105 - Fernanda Soraia Pacheco Costa
106 - Leonora Rigo Gaspar
107 - Marcos Alves Tavares
108 - Jorge Alexandre de Souza
109 - Anderson Fernandes Vieira
110 - Raquel Fernandez Perrini
111- Adriana Delboni Taricco Ikeda
112 - Tânia Lika Takeuchi
113- Janaína Rodrigues Valle Gomes
114- Fernando Marcelo Mendes
115- Simone Schroder Ribeiro
116- Nino Oliveira Toldo
117 - João Eduardo Consolim
118 - Raul Mariano Júnior
119 - Mônica Aparecida Bonavina
120 - Dasser Lettiere Júnior
121 - Renata Andrade Lotufo
122 - Paula Mantovani Avelino
123 - Renato de Carvalho Viana
124 - Marcelo Guerra Martins
125 - Maíra Felipe Lourenço
126 - Andréa Basso
127- Diogo Ricardo Goés Oliveira
128- Guilherme Andrade Lucci
129- Carla Cristina Fonseca Jorio
130- Higino Cinacchi Junior

Procuradores divulgam carta de repúdio a Gilmar Mendes

42 procuradores divulgaram carta aberta, na qual lamentam decisão de Gilmar Mendes no habeas corpus que tirou Daniel Dantas da prisão pela primeira vez.
Para eles, "as instituições democráticas brasileiras foram frontalmente atingidas pela decisão liminar que, em tempo recorde, sob o pífio argumento de falta de fundamentação, desconsiderou todo um trabalho criteriosamente tratado nas 175 páginas do decreto de prisão provisória proferido por juiz federal".

Sanctis nega que tenha pedido monitoramento

O juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6ª Vara, divulgou nota, na qual diz que não pediu o monitoramento pela PF do gabinete do presidente do STF, Gilmar Mendes

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Conduta de delegado divide cúpula da PF

Delegado teria dito que agiu com receio de que as informações estratégicas da ação pudessem vazar e prejudicar toda a operação

A Operação Satiagraha, apesar de considerada um sucesso pelo governo, dividiu a Polícia Federal pela forma como o delegado responsável Protógenes Queiroz conduziu as investigações. Ele chegou a requisitar agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para auxiliá-lo nos trabalhos que culminaram com a prisão do banqueiro Daniel Dantas.


A cúpula da PF avalia que Queiroz desrespeitou algumas normas de conduta, como não prestar contas do andamento da investigação, não fornecendo sequer informações básicas que permitissem estruturar a parte logística da operação. Por pouco, a ação da PF não foi suspensa na véspera.


A pessoas próximas, Queiroz alega que tomou tais medidas por receio de que informações estratégicas pudessem vazar e prejudicar a operação. Por ter sido feriado ontem em São Paulo, a Folha não conseguiu contatar o delegado.


Um dos integrantes da cúpula da PF, designado para acompanhar a ação em São Paulo, disse a Queiroz que a operação poderia ser abortada se ele não passasse coordenadas mínimas, como os nomes dos alvos dos mandados de prisão. Foi só na noite de segunda que ele informou a cúpula dos detalhes.


O uso de agentes da Abin, por exemplo, não era do conhecimento da chefia da Polícia Federal nem do Ministério da Justiça, que reprovou a prática, embora ela seja legal.


A presença de agentes da Abin nas investigações foi registrada em pelo menos um episódio, ocorrido no dia 27 de maio, quando o carro de Humberto Braz, assessor de Dantas e com prisão decretada, foi seguido nas ruas do Rio quando levava um filho para a escola.


O motorista de Braz suspeitou ser seguido e acionou a divisão anti-seqüestro da polícia do Rio. Ao ser abordado, um homem dentro do veículo, um Astra, se identificou como tenente Marcos, a serviço da Abin. Acabou liberado.


No mesmo dia, Humberto Braz encontrou-se em Brasília com o publicitário Guilherme Sodré, que trabalha para o banqueiro, a quem relatou o episódio ocorrido no Rio.


Sodré, alvo de mandados de busca e apreensão da PF em São Paulo e Brasília, partilhou a informação com o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), político aliado do banqueiro Daniel Dantas no Congresso.


No dia seguinte, Heráclito recebia em seu gabinete o diretor-geral da Abin, delegado Paulo Lacerda, a quem relatou o caso. Inicialmente, Lacerda negou a atuação de agentes da Abin na investigação da PF.


Um dia depois, em 29 de maio, Lacerda voltou a entrar em contato com o gabinete do senador. Dessa vez, teria admitido que um agente da Abin seguiu o carro, mas que teria sido um engano. O policial estaria atrás de um russo.


A admissão da presença de um agente da Abin no caso ocorreu depois que Sodré também acionou o ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, contratado por Dantas.


Greenhalgh teria questionado o Palácio do Planalto sobre a atuação de agentes da Abin em possível monitoramento de diretores do Opportunity no Rio. Só então veio a confirmação, mas com a ressalva de que teria sido um engano. A Folha também tentou falar com o ex-deputado, mas não o localizou.


Ontem, a Abin disse que "sempre que solicitada, havendo a possibilidade, disponibiliza servidores para atuar com órgãos parceiros do governo". Não comentou o caso específico da operação.

Fonte: Folha de S. Paulo

PF viveu guerra e espionagem para prender Dantas

Bob Fernandes

Os intestinos do Brasil.

A Polícia Federal trabalhou duramente para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal não queria, de forma alguma, que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas fosse preso. A Polícia Federal fez tudo para que Daniel Dantas não fosse preso.

A Polícia Federal trabalhou contra a Polícia Federal.

Esse é mais um capítulo do mergulho nos intestinos do Brasil. Estão presos o banqueiro do Opportunity, o megaespeculador Naji Nahas, o ex-prefeito Celso Pitta e outros 17 dos 21 que tiveram a prisão decretada. É quarta-feira, 9 de julho.

Nas telas, ondas, bits e páginas, a futebolização de sempre: aplausos entusiasmados, críticas ferozes à ação da polícia. O que ainda não chegou à tona é a verdadeira história dessa gigantesca ação policial, da encarniçada batalha que se travou nos setores de Inteligência e da Polícia.

O que se narra aqui são cenas, é o contorno dessa batalha, mas antes é preciso lembrar que este é apenas mais um capítulo.

Crucial, decisivo para que se entenda o todo, o que se movia, se move - e se moverá -, mas apenas mais um capítulo no enredo da maior disputa da história do capitalismo brasileiro, disputa essa que carrega em si o esteio, a sustentação do poder. Do Grande Poder.

O delegado Protógenes Queiroz comandou as investigações no último ano. Antes dele, ao tentar seguir a pista da organização comandada por Dantas, outros delegados fraquejaram. Ou desistiram, ou...

Protógenes foi conduzido ao comando da investigação sigilosa pelo então diretor geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, hoje chefe da Agência Brasileira de Inteligência, Abin. Paulo Lacerda queria e autorizou a operação até deixar a direção da PF.

Um dia, convidado pelo presidente Lula, Lacerda foi para a Abin. Em seu lugar assumiu Luiz Fernando Corrêa, que chefiava a Força Nacional de Segurança Pública. Luiz assumiu com fama de amigo de José Dirceu.

Se era ou se não era, se suas relações vinham apenas da proximidade no trabalho de segurança da PF ao candidato Lula em eleição anterior, é uma outra questão, mas o fato é que Luiz Fernando chegou ao cargo com essa fama: amigo de José Dirceu.

Logo ao assumir, o diretor da PF quis mais informações sobre que investigação seria aquela relativa aos negócios e métodos de Daniel Dantas. Normal. Parte das suas atribuições de comando.

O delegado Protógenes, por seu lado, ofereceu explicações genéricas, mas guardou o que era secreto, segredo de justiça.

Normal. Manhas de um tira brilhante, esperto, do policial que prendeu Paulo Maluf, o contrabandista Law Kin Chong, que pôs na marca do pênalti o Corinthians da MSI, Kia Joorabichian e Dualib, que investiga para a FIFA as lavanderias do futebol mundo afora.

Normal, em meio aos rumores sobre vazamentos na investigação e, pior, propinas. Subornos em favor de Dantas.

Na diretoria de Inteligência, um aliado do diretor geral na busca de informações amplas sobre o núcleo das investigações: o delegado Daniel Lorenz.

Protógenes Queiróz é duro na queda. Primeiros embates, e a operação Satiagraha perde estrutura. O comando esvazia parte da logística; retira agentes e peritos, encolhe a sala, asfixia as investigações....o corriqueiro nos jogos de guerra.

O jogo é maior, muito maior. As pedras se movem. Ao diretor da Polícia Federal chega o recado. Suave, mas direto: as investigações devem prosseguir.

Fim do ano. Mídia afora, o festival de plantações, versões. A batalha, que é política, comercial, policial, segue seu leito também nas telas, ondas, bits e páginas. Véspera do Natal. Estranhíssima entrevista do diretor geral.

Luiz Fernando Corrêa escolhe o encarte semanal "Brasília" do jornal mineiro Hoje em Dia para mandar um recado em forma de entrevista. Manchete:

-Cada geração tem um papel a cumprir. Cumpriu, sai fora!

Até o vidro fumê do edifício sede da PF em Brasília captou a mensagem e os destinatários: Paulo Lacerda e antigos delegados que comandaram a Polícia durante 4 anos e 8 meses do governo Lula.

Para não haver dúvidas, a capa do tablóide berrou:

-PF dividida.

Véspera do Natal, peru, nozes, vinhos, poucos civis devem ter lido. Mas a polícia inteira leu. Comentou, discutiu. E mesmo o mais desatento agente sacou que a barca do delegado Protógenes Queiroz, fosse qual fosse, não era uma boa aos olhos da direção.

Parênteses. Daniel Dantas e os seus comemoravam, vibravam a cada boa notícia. Sim, o que não faltou nesse enredo foi notícia. Capas e capas.

O carnaval se foi. E um fato: a repórter quer falar com o delegado Queiroz. Quer informações sobre uma investigação que envolveria Daniel Dantas e o Opportunity. Apreensão, no início de abril - e isso são fatos. Objetivos. Conhecidos desde então: a repórter vai publicar o que tem se não for recebida.

A situação se agrava. Por ordem do comando, o delegado Protógenes Queiroz perde quase toda a logística. Fato registrado, inclusive, em imagens: a sala sendo esvaziada, a tralha tecnológica removida.

Queiroz começa a fingir que a operação faz água. Cede, aceita conversar com a repórter; Andréa Michael, da Folha de S.Paulo. Mas faz uma exigência aos superiores: quer a presença do diretor geral, Luiz Fernando Corrêa, e de Lorenz, o diretor de Inteligência.

Corrêa não vai, manda alguém da comunicação social. Lorenz, presente. Na conversa, o delegado Queiroz contorna, tergiversa, despista, e guarda tudo o que disse e o que não disse.

Sábado, 16 de Abril. Anunciado o acordo das teles, vem aí a BrOi. No caderno "Dinheiro", da Folha, em quase meia página a repórter Andréa Michael relata os contornos de uma operação a caminho, destinada a prender Daniel Dantas.

Domingo, 17 de Abril. A operação está morta. Protógenes Queiroz faz dois movimentos. Primeiro, na véspera, a ligação para Lorenz, que está no Chile. Cobra a conta da conversa com a repórter, quando apenas despistou. A conversa, de parte a parte, não é boa.

Segundo movimento: Queiroz, para efeito externo, dá a operação como morta. Para efeito interno, os fatos incendeiam agentes, peritos e delegados envolvidos numa operação cada vez mais secreta.

Segue a semana. Queiroz é comunicado. Não há, não haverá mais logística alguma. Caso encerrado. Caso que o diretor geral e o diretor de Inteligência seguem a desconhecer em seu teor. O delegado está solto no espaço.

Uma outra rede conecta-se, subterrânea, solidária. O outro lado da polícia trabalha, secretamente, pela Satiagraha, a "firmeza na verdade" de Gandhi.

Notas em colunas, sites. Chutes, bravatas, cascatas, desinformação. A operação é adiada. Uma, duas, três vezes.

O delegado Protógenes Queiroz é monitorado, vigiado. Pela Polícia Federal. E sua equipe contra-ataca: vigia, monitora, flagra e registra, os movimentos dos monitoradores da própria PF.

Daniel Dantas e os seus estão tensos. Em dúvida: acabou, ou não acabou? Na dúvida, encaminham ao Supremo Tribunal Federal um pedido de habeas corpus preventivo, para Dantas e a irmã, Verônica.

Daniel Dantas morde a isca. Humberto Braz, ex-presidente da Brasil Telecom e o amigo Hugo Chicaroni são os intermediários. A oferta é feita ao delegado Vitor Hugo Rodrigues Alves.

Na churrascaria El Tranvia, bairro de Santa Cecília, São Paulo, o ensaio para o acordo final: US$ 1 milhão.

Como sinal, duas parcelas, uma de 50 e outra de 80, e pagamento em outras duas de US$ 500 mil. Encontros e acordos fechados em 18 e 26 de junho. Para livrar a cara dos Dantas.

Há algo no ar. Frases soltas.

Gilmar Mendes é o presidente do STF. No meio da semana, pós-São João, desponta nas telas, um tempão nos telejornais, nas manchetes do dia seguinte. Refere-se a informações vazadas por policiais, uma "coisa de gângsters" e ao "terrorismo lamentável".

A fala ecoa. Cada um entende como quer. Críticas gerais às interceptações telefônicas (mesmo às autorizadas judicialmente).

Julho chegou. Fim de semana. Notas, boatos... Daniel Dantas está em Nova Iorque... Daniel Dantas aguarda o habeas corpus para voltar ao Brasil...

Sete de Julho. O delegado geral, Luiz Fernando Corrêa, que até a véspera nada sabia sobre a verdadeira extensão de Satiagraha, quer agora saber de tudo. De tudo, não saberá. Extrema tensão. Como há um mês, no Rio de Janeiro.

Agentes da equipe de Queiroz seguiam gente dos Dantas, pelas ruas do Rio. A polícia foi chamada, quase um confronto até o esclarecimento "somos da PF" e o despiste numa operação banal qualquer. Mas a queixa subiu.

Chegou ao diretor geral da PF, a Heráclito Fortes (DEM-PI) no senado e ao advogado geral da União, José Antonio Toffoli, adentrou o Supremo Tribunal.

Seis da manhã, 8 de julho. Avenida Viera Souto, Ipanema, Rio de Janeiro. Daniel Dantas está preso.

Furacão na mídia, por todo o dia. À noite nos telejornais e no dia seguinte, este 9 de julho, a repercussão.

Gilmar Mendes, o presidente do STF ataca a "espetacularização das prisões incompatível com o Estado de Direito", critica duramente o pedido de prisão, negado, contra a repórter da Folha de S. Paulo:

-...isso faz inveja ao regime soviético...

Frases soltas no ar.

Miriam Leitão, a comentarista econômica, também está no ar. Na rádio CBN, Miriam conversa com Carlos Alberto Sardenberg.

Meio dia e quarenta. Miriam diz não ter entendido direito porque Daniel Dantas foi preso. Afinal, constata, as acusações são inconsistentes, "coisas do passado", e é preciso que a Polícia Federal explique melhor por que fez essa operação "com tamanho estardalhaço..."

Miriam se vai. Sardenberg chama os comerciais, não percebe que o microfone está aberto, e deixa escapar:

-...ela tava estranha, não?

Frases soltas no ar.

Daniel Dantas está preso. Esse, o policial, é mais um capítulo da operação que chegou aos intestinos do Brasil.

Fonte: Terra Magazine

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Operação Satiagraha da Polícia Federal prende "mega ladrões" e incomoda ministro do STF

Presidente do STF: 'espetacularização das prisões' em operação da PF

Gilmar Mendes diz que “dificilmente” a ação da PF é compatível com o estado de Direito.
Foram presos Daniel Dantas, o ex-prefeito Celso Pitta e o empresário Naji Nahas.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, voltou a criticar a "espetacularização das prisões" durante operação da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (08/07/2008). Ele disse que a Operação Satiagraha da PF, que investiga desvio de verbas públicas e crimes financeiros, “dificilmente” é compatível com o estado de Direito.

“De novo é um quadro de espetacularização das prisões, isso é evidente, dificilmente compatível com o estado de Direito, uso de algema abusivo, já falamos sobre isso aqui, mas tudo isso terá que ser discutido”, disse Gilmar Mendes, ao chegar a uma solenidade no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), na noite desta terça.

Na ação da PF, foram presos, entre outros, o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o empresário Naji Nahas.


Gângster

No último dia 1º, Gimar Mendes atacara o vazamento de escutas telefônicas em investigações criminais feitas pela PF. Na ocasião, ele cobrou uma atuação enérgica do governo federal para coibir o suposto uso dos grampos para intimidar agentes públicos. E disse que isso é “coisa de gângster”.

“Veja que tipo de terrorismo lamentável. Coisa de gângster, quem faz isso na verdade não é agente público, é gângster”, disse.

Navalha

Durante as investigações da PF sobre o esquema de fraude em licitações desmontado pela Operação Navalha, um suposto vazamento equivocado de informações, em 2007, irritou o ministro. Na época, segundo ele, a PF teria vazado que alguém com nome igual ao dele estaria numa lista de autoridades que teriam recebido presentes da construtora Gautama, principal alvo da ação.

Na ocasião, ele aproveitou para criticar a atuação da Procuradoria Geral da República. Disse que muitas vezes ela é “co-autora, cúmplice e conivente” com a prática.

“Muitas vezes, esses fatos são revelados e ficam na memória apenas daqueles que são eventualmente prejudicados ou atingidos. Hoje mesmo falei com o dr. Antonio Fernando [de Souza , procurador-geral da República] que o Supremo Tribunal Federal vai exigir que essas representações que foram encaminhadas tenham curso”, afirmou.


Suposto suborno

Os agentes da PF apreenderam carros e R$ 1 milhão na casa de um dos detidos. Ele foi acusado de tentar subornar um delegado da PF a mando de Daniel Dantas. O suspeito teria oferecido US$ 1 milhão para o delegado retirar nomes do inquérito, de acordo com o Ministério Público Federal. A suspeita é de que parte do dinheiro apreendido fosse ser utilizado para a tentativa de suborno.

Nélio Machado, que defende Daniel Dantas, disse que a prisão ocorreu de forma irregular, uma vez que seu cliente não oferecia perigo, e negou as acusações de fraude. Segundo ele, Dantas não conhecia Celso Pitta nem Naji Nahas. Ele afirmou não ter obtido informações sobre o teor do processo e quando tiver disse que entrará com pedido de soltura.

Núcleos

Segundo a PF, haveria dois núcleos principais na suposta quadrilha. Um deles seria comandado por Daniel Dantas e teria se beneficiado de recursos públicos, desviados pelos operadores do mensalão. Empresas de fachada teriam sido montadas para o desvio das verbas.

Além do grupo de Dantas, a PF teria descoberto um segundo núcleo, ligado ao primeiro, formado por empresários e doleiros que atuavam no mercado financeiro para fazer a lavagem do dinheiro. Esse grupo, segundo a PF, seria comandado pelo empresário Naji Nahas. Era nesse grupo que estaria o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.

O elo entre os dois grupos seria Dantas e Nahas.

Celso Pitta

De acordo com o procurador da República Rodrigo de Grandis, Celso Pitta teria recebido de Naji Nahas dinheiro que viria do exterior. "Tudo sugere que o dinheiro entregue por Nahas a ele (Pitta) era dinheiro de Pitta que está no exterior. (...) Há fortes indícios que o dinheiro de Pitta é proveniente de dinheiro desviado da prefeitura (de São Paulo). Mas ainda não há certeza disso."

A advogada de Celso Pitta, Paula Sion de Souza Neves, afirmou que ainda vai se inteirar sobre o processo. "A gente agora vai se inteirar e provavelmente formular pedido para que ele seja solto antes dos cinco dias." Ela disse não saber se Pitta conhecia Naji Nahas.

Naji Najas

O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, responsável pela investigação da Operação Satiagraha, afirmou que o empresário Naji Najas tinha um "megacontato" que lhe repassava informações sigilosas do Banco Central norte-americano, o Federal Reserve (Fed).

"Muitos nos supreendeu do Fed, megacontato do Naji Nahas no Brasil e no exterior que teve indícios de manipulação do mercado financeiro internacional, onde ele se privilegia da informações para aplicar no mercado internacional", afirmou o delegado.

Em nota divulgada mais cedo, a PF havia informado que a operação detectou "indícios inclusive do recebimento de informações privilegiadas sobre a taxa de juros do Federal Reserve".

O advogado de Naji Nahas, Sérgio Rosenthal, disse nesta terça-feira (8) não ter conhecimento dos detalhes da operação que levaram à prisão de seu cliente.

"Nós estamos em meio à operação, a operação é sigilosa. Nós não temos os detalhes ainda. Assim que eu tiver detalhes eu poderei conversar com vocês", disse Rosenthal.

O nome da operação, Satiagraha, significa resistência pacífica e silenciosa, conforme nota divulgada pela PF.

Fonte: G1

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Colômbia resgata Ingrid Betancourt e outros 14 reféns das FARC

O governo da Colômbia anunciou nesta quarta-feira, 02/07/2008, o resgate de Ingrid Betancourt, três reféns americanos e de outros 11 seqüestrados que estavam sob o poder das Farc.

De acordo com o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, o resgate foi realizado em zona de selva a 72 km da capital do departamento de Guaviare, no sudoeste da Colômbia, em uma operação realizada pelas forças armadas colombianas. Os reféns estão em boas condições de saúde e estão sendo levados a base militar de Tolemaida, informa o ministro.

"Seguiremos trabalhando na libertação dos demais seqüestrados. Fazemos um apelo aos atuais líderes das Farc para que não se matem, libertem os outros reféns e não sacrifiquem seus homens", disse Santos.

A senadora e então candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt foi seqüestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no dia 23 de fevereiro de 2002, junto com sua companheira de chapa Clara Rojas. A ação aconteceu perto de San Vicente del Caguán, 740 km ao sudeste de Bogotá, durante o governo de Andrés Pastrana.

Já os três norte-americanos, Thomas Howes, Marc Gonsalves e Keith Stansell, eram trabalhadores a serviço da Departamento de Defesa dos EUA em missão antidrogas que foram seqüestrados quando o avião em que estavam caiu na Colômbia em fevereiro de 2003.

O seqüestro de Betancourt

A franco-colombiana Ingrid Betancourt foi seqüestrada em 2002 e virou símbolo dos acordos conflituosos entre as Farc e o governo colombiano. Nas eleições em que Betancourt concorria como candidata à presidência, foi eleito Álvaro Uribe, partidário da linha dura com a guerrilha.

Já no poder, Uribe revela um plano para enviar rebeldes presos ao exterior, com apoio da França, em troca da libertação de seqüestrados políticos. A troca seria de 45 reféns, incluíndo Betancourt por 500 guerrilheiros presos.

Em 9 de julho de 2003, a França envia um avião a Manaus, na Amazônia brasileira, para uma eventual libertação de Betancourt, numa operação secreta que fracassa.

Em dezembro de 2004, o presidente colombiano Álvaro Uribe liberta 23 guerrilheiros para destravar o bloqueio a um acordo. No dia seguinte, as Farc pedem a libertade de 500 rebeldes.

Um ano depois, em 13 de dezembro de 2005, França, Espanha e Suíça propõem negociar a troca de reféns por prisioneiros em uma pequena propriedade rural no sudeste da Colômbia, com observação internacional. Uribe aceita. Mas em 2 de janeiro de 2006, a guerrilha diz desconhecer a proposta européia e considera que negociar seria favorecer Uribe, que estava em campanha para reeleição.

Uribe é reeleito para um segundo mandato. No início de 2007, Uribe diz ante a cúpula da polícia que o ano será "crucial para resgatar os seqüestrados". A França e a família de Betancourt se opõem a uma operação militar.

Em 28 de abril, o policial John Frank Pinchao, que partilhava o cativeiro com Betancourt, consegue escapar e conta que ela permanece num acampamento na selva do sudeste da Colômbia.

Em 6 de maio, em seu primeiro discurso após ser eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy afirma que não esquecerá da sorte de Betancourt. No mês seguinte, Uribe começa a liberar mais de 120 guerrilheiros, entre eles o chamado "chanceler" do grupo, Rodrigo Granda, cuja liberdade foi solicitada por Sarkozy.

Em 17 de agosto, o presidente venezuelano Hugo Chávez aceita fazer a mediação entre as Farc e Uribe. Três meses depois, porém, Álvaro Uribe suspende a mediação de Chávez junto aos rebeldes, acusando o presidente venezuelano de ingerência nos assuntos internos da Colômbia.

No final de dezembro do ano passado, a guerrilha anunciou a intenção de entregar a Chávez a ex-deputada Consuelo González, a ex-candidata a vice-presidente Clara Rojas e o filho dela, Emmanuel, nascido em cativeiro. A decisão é um ato de "desagravo" ao afastamento do venezuelano da negociação.

Em 10 de janeiro, as Farc libertam as duas políticas em uma região na selva do departamento de Guaviare. No começo de fevereiro, o anúncio de mais três libertações. Em 27 de fevereiro, são entregues os ex-parlamentares Luis Eladio Pérez, Orlando Beltrán, Gloria Polanco e Jorge Eduardo Gechém.

EUA usaram métodos chineses de tortura em interrogatórios de Guantánamo

Os instrutores militares que seguiram para a Baía de Guantánamo em dezembro de 2002 basearam uma aula inteira sobre interrogatórios em uma cartilha que mostrava os efeitos das "Técnicas de Gerenciamento Coercitivo" para uma possível utilização em prisioneiros, incluindo "Privação de Sono", "Imobilização Prolongada" e "Exposição ao Frio".

O que os instrutores não disseram - e pode ser que não soubessem - foi que a cartilha era uma cópia literal de um estudo feito pela Força Aérea dos Estados Unidos, em 1957, sobre as técnicas comunistas chinesas utilizadas durante a Guerra da Coréia para obter confissões, muitas delas falsas, de prisioneiros norte-americanos.

A cartilha reciclada é a última e a mais vívida evidência da forma como os métodos comunistas de interrogatório que os Estados Unidos descreveram por muito tempo como sendo tortura tornaram-se a base dos interrogatórios realizados tanto pelas forças armadas em Guantánamo quanto pela Agência Central de Inteligência (CIA).

Alguns métodos foram aplicados em um pequeno número de prisioneiros de Guantánamo antes de 2005, quando o Congresso proibiu o uso da coerção pelas forças armadas. A CIA ainda conta com a autorização do presidente Bush para utilizar vários métodos secretos "alternativos" de interrogatório. Diversos documentos de Guantánamo, incluindo a cartilha que descreve os métodos coercivos, foram divulgados em uma audiência do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas em 17 de junho, que analisou como foi que tais táticas passaram a ser empregadas.

Mas os investigadores do comitê não sabiam que a origem da cartilha estava no artigo publicado há meio século em um periódico militar, uma conexão que foi divulgada ao "New York Times" por um especialista em interrogatórios independente, que falou sob a condição de que o seu nome não fosse revelado.

O artigo de 1957 do qual a cartilha foi copiada tem o título "Communist Attempts to Elicit False Confessions From the Air Force Prisoners of War" ("Tentativas Comunistas de Obter Falsas Confissões de Prisioneiros de Guerra Membros da Força Aérea"), e foi escrito por Alfred D.

Biderman, um sociólogo que servia na Força Aérea, e que morreu em 2003.

Biderman entrevistou ex-prisioneiros norte-americanos que retornaram da Coréia do Norte, alguns dos quais foram filmados pelos seus interrogadores chineses confessando ter praticado guerra bacteriológica e outras atrocidades.

Essas confissões orquestradas geraram alegações de que os prisioneiros norte-americanos tinham sofrido "lavagem cerebral", e motivaram as forças armadas a intensificar o seu treinamento no sentido de proporcionar a alguns dos seus membros um sabor dos métodos duros dos inimigos, a fim de evitar que eles capitulassem rapidamente caso fossem capturados.

Em 2002, o programa de treinamento, conhecido como SERE (acrônimo em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga), transformou-se em uma fonte de métodos de interrogatório tanto para a CIA quanto para as forças armadas. Naquilo que os críticos descrevem como um caso notável de amnésia histórica, as autoridades que recorreram ao programa SERE parecem não ter tido consciência de que ele foi criado como resultado da preocupação quanto às falsas confissões feitas pelos prisioneiros norte-americanos.

O senador Carl Levin, democrata pelo Estado de Michigan, presidente do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas, disse, após examinar o artigo de 1957, que "todo norte-americano ficaria chocado" com a origem do documento de treinamento.

"O que faz com que este documento seja duplamente chocante é o fato de que essas eram técnicas usadas para a obtenção de falsas confissões", afirma Levin. "As pessoas dizem que precisamos de informações de inteligência, e elas estão certas. Mas não necessitamos de falsas informações de inteligência".

O tenente-coronel Patrick Ryder, um porta-voz do Departamento de Defesa, disse que não poderia fazer comentários a respeito da cartilha de treinamento utilizada em Guantánamo. "Não posso especular a respeito de decisões anteriores que podem ter sido tomadas antes da atual política do Departamento de Defesa para interrogatórios", disse Ryder. "Posso afirmar a vocês que a atual política do Departamento de Defesa é clara - nós tratamos todos os detentos humanamente".

O artigo escrito por Biderman em 1957 descrevia "uma forma de tortura" usada pelos chineses que consistia em obrigar os prisioneiros norte-americanos a "ficar de pé por períodos excessivamente longos", às vezes em condições de "frio extremo". Ele escreveu que tais métodos passivos eram mais comuns do que a violência física direta. Obrigar os prisioneiros a ficar de pé por longos períodos e expô-los ao frio foram técnicas utilizadas pelos interrogadores norte-americanos militares e da CIA contra os suspeitos de serem terroristas.

A cartilha também descreve outras técnicas utilizadas pelos chineses, incluindo "fome parcial", "exploração de ferimentos" e "ambientes sujos e infestados", bem como os efeitos provocados por tais métodos: "Tornam a vítima dependente do interrogador", "Enfraquecem a Capacidade de Resistência Mental e Física" e "Reduzem o Prisioneiro a Preocupações de 'Nível Animal'".

A única modificação feita na cartilha apresentada em Guantánamo foi a retirada do título original: "Métodos Coercivos Comunistas para Gerar a Colaboração Individual".

Os documentos divulgados no mês passado incluem uma mensagem de e-mail de dois instrutores de SERE, relatando o período que passaram em Guantánamo, de 29 de dezembro de 2002 a 4 de janeiro de 2003. Segundo a mensagem, o objetivo era apresentar aos interrogadores "a teoria e a aplicação das pressões físicas utilizadas durante o nosso treinamento".

De acordo com a mensagem, as sessões incluíram "uma aula profunda sobre os Princípios Biderman", em uma referência à cartilha baseada no artigo de Biderman publicado em 1957. Versões da mesma cartilha, identificada com freqüência como "Cartilha de Coerção de Biderman", circulam em sites na Internet contrários às seitas baseadas no fanatismo religioso. Os métodos da cartilha são utilizados por esses sites para demonstrar como tais seitas controlam os seus membros.

O psiquiatra Robert Jay Lifton, que estudou prisioneiros que retornaram de guerras, e escreveu um artigo na mesma edição de 1957 do periódico "The Bulletin of the New York Academy of Medicine", disse em uma entrevista que ficou perturbado ao saber que os métodos chineses foram reciclados e ensinados em Guantánamo.

"Isso me entristece", afirmou Lifton, que em 1961 escreveu um livro sobre aquilo que os chineses chamavam de "reforma do pensamento", e que se tornou conhecido na linguagem popular norte-americana como lavagem cerebral. Ele classificou a utilização de técnicas chinesas por interrogadores norte-americanos em Guantánamo de "uma virada de 180º".

O interrogatório mais brutal ocorrido em Guantánamo do qual se tem conhecimento foi o de Mohammed al-Qahtani, um membro da Al Qaeda suspeito de ser o "20º seqüestrador" nos ataques de 11 de setembro de 2001. Os interrogatórios de Al Qahtani envolveram privação de sono, posições estressantes, exposição ao frio e outros métodos também usados pelos chineses.

As acusações de terrorismo contra al-Qahtani foram retiradas inesperadamente em maio deste ano. As autoridades informaram que as acusações poderiam ser feitas novamente mais tarde, e recusaram-se a dizer se a decisão foi influenciada por preocupações quanto ao tratamento a que al-Qahtani foi submetido.

Bush defendeu o uso de métodos brutais, alegando que estes ajudam a fornecer informações críticas de inteligência e a prevenir novos ataques terroristas. Mas a questão continua a complicar os processos há muito atrasados, que agora estão em andamento em Guantánamo.

Abd al-Rahim al-Nashiri, um membro da Al Qaeda acusado de desempenhar um papel importante no ataque a bomba contra o destróier norte-americano "Cole" no Iêmen, em 2000, foi acusado na segunda-feira de assassinato e outros crimes. Em audiências anteriores, al-Nashiri, que foi submetido ao "waterboarding" (técnica de tortura conhecida como "afogamento"), afirmou ter confessado falsamente a sua participação no ataque porque estava sendo torturado.

Fonte: The New York Times

terça-feira, 1 de julho de 2008

Por que Moscou está arriscando uma nova Guerra Fria?

Bombardeiros estratégicos além da costa americana, navios de guerra no Mediterrâneo -as forças armadas russas estão exibindo seu poderio novamente, com Moscou gastando bilhões em novas armas.

Às onze horas da noite, quando a lua está refletida nas águas que se movem lentamente do Rio Volga, quando as estepes estão exalando o calor do dia, e quando os últimos bares estão fechando em Yekaterinburgo e Pokrovsk - antigas cidades provinciais na margem esquerda do rio - Gennady Stekachov está a caminho da política mundial. E todos podem ouvir.

As venezianas sacodem nas velhas casas de madeira que colonos alemães construíram há 250 anos, e os vidros das janelas trepidam nos prédios de apartamentos pré-fabricados da época soviética.

A comoção se deve a Stekachov estar conduzindo seu bombardeiro de longo alcance, de 150 toneladas, por uma pista nos arredores da cidade e, juntamente com sua tripulação de sete outros homens, decolando rumo ao céu noturno.

Ele segue sua rota habitual para o norte, sobre o Mar Ártico e o Mar de Barents, e então se volta para o Ocidente para contornar a calota de gelo polar. Os primeiros caças da Otan, agora em alerta elevado, aparecem quando Stekachov chega à costa norueguesa. De lá, os jatos - Mirages franceses, Tornados britânicos ou F-16s noruegueses - escoltam o Tupolev Tu-95 além das ilhas Faroë e Shetland (Escócia) até próximo da costa americana.

Os homens passam 16 horas no ar, com nada exceto o oceano abaixo e nem mesmo um toalete a bordo. Mas apesar da falta de conforto, a viagem oferece bastante empolgação de arrepiar os cabelos, como quando uma aeronave da Otan cruza o caminho de Stekachov bem abaixo de sua aeronave, que pode carregar 16 mísseis de cruzeiro aos cantos mais remotos do planeta.

Stekachov finalmente vê um propósito para sua profissão, agora que a Rússia está novamente enviando sua força aérea estratégica em vôos de patrulha pelo mundo, após um hiato de 15 anos causado por falta de recursos. "Em quatro meses", ele disse, "minha tripulação realizou sete missões até próximo da costa americana". Stekachov, um tenente-coronel de uma pequena cidade pouco conhecida no Volga, teve que esperar 15 anos pela experiência.

Se qualquer alemão está familiarizado com Engels, uma cidade de 200 mil habitantes a 350 quilômetros da ex-Stalingrado, ele a conhece como a capital da antiga República Autônoma Alemã do Volga, que o ditador Josef Stalin dissolveu em agosto de 1941, banindo seus moradores para a Sibéria e Cazaquistão. E os aficionados por vôos espaciais podem até mesmo conhecê-la como a cidade onde Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta do mundo, pousou com seu pára-quedas em 12 de abril de 1961.

Mas Engels é mais conhecida pelos russos. Moscou construiu sua primeira escola para pilotos militares ali em 1930. Hoje, o aeroporto da cidade é lar da 22ª Divisão de Bombardeiro Pesado do 37º Exército do Ar - uma unidade que, em caso de conflito nuclear, levaria as bombas nucleares russas até alvos em território inimigo. Trinta e sete grandes bombardeiros estão atualmente estacionados em Engels para este propósito. Eles incluem 18 aeronaves Tu-95 de quatro motores turboélices, conhecidos como "Bears" (ursos) no jargão da Otan, com autonomia de 15 mil quilômetros, e 15 jatos Tu-160, que os russos consideram as fortalezas voadoras mais formidáveis do mundo, voando a velocidades máximas de mais de 2 mil km/h e com espaço para 40 toneladas de bombas a bordo - conhecidos no Ocidente como "Blackjacks".

Há apenas uma década, a base aérea de Engels estava praticamente vazia. O ex-presidente russo Boris Yeltsin ordenou que a maioria dos bombardeiros russos fosse transferido para outros lugares. Mas hoje uma bandeira na entrada da base aérea encoraja os moradores locais a reacenderem a "glória das armas russas".

Um ar de Guerra Fria foi revivido entre o Oriente e o Ocidente desde que a Rússia começou a enviar novamente seus pilotos em missões, desde que suas aeronaves, em um retorno aos tempos soviéticos, reapareceram nas telas de radar do Ocidente, e desde que, ocasionalmente, se aproximaram a curta distância da fronteira britânica, sobrevoaram o porta-aviões americano Nimitz e uma ilha japonesa (apesar de desabitada), que Tóquio respondeu com o envio de duas dúzias de caças para expulsar os intrusos. "Nosso trabalho é mostrar que como somos capazes de voar tão longe, que nós também somos capazes de levar as armas aos nossos destinos", disse o general Pavel Androssov, o comandante de todas as aeronaves estratégicas.

De volta aos negócios
As forças armadas russas, ainda uma das maiores do mundo, com seus 1,1 milhão de soldados, estão de volta - e não apenas no ar. A Marinha está realizando de novo exercícios no Atlântico e no Mediterrâneo, e em fevereiro o Yury Dolgoruki foi o primeiro de uma nova geração de submarinos russos a deixar sua doca. A nova embarcação é um gigante entre os submarinos, capaz de disparar 16 mísseis carregando ogivas nucleares e de permanecer submerso por até 100 dias. Uma grande manobra da frota do Pacífico e Mar Ártico do país será conduzida em um dos oceanos do mundo em breve. O comandante do exercício é o presidente Dmitry Medvedev.

Em 2007, o orçamento militar da Rússia saltou para 822 bilhões de rublos, ou US$ 35,4 bilhões. E como o petróleo está enchendo cada vez mais os cofres do governo de dinheiro, o Kremlin e seus generais realizaram vários anúncios espalhafatosos recentemente. Moscou espera contar com 50 bombardeiros estratégicos até 2015, munidos com muitos mísseis balísticos intercontinentais "Topol-M", assim como oito submarinos nucleares "Bora" (vendaval). Ele também desenvolveu um novo míssil balístico, o "Bulava" (clava), e o T-95 - o "tanque do século 21"- será colocado em serviço no próximo ano.

"A máquina militar russa está de volta aos negócios", escreve o "Daily Telegraph do Reino Unido, descrevendo o "aumento dramático em potencial militar" da Rússia. Segundo o general Michael D. Maples, chefe da Agência de Inteligência da Defesa (DIA) dos Estados Unidos, "a Rússia está tentando restabelecer um grau de poderio militar que esteja à altura de sua força econômica renovada e confiança política". E para o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, a modernização das forças armadas russas "ressalta a importância de nossa manutenção de um dissuasor nuclear válido" no futuro, como ele disse aos oficiais da Força Aérea americana no início de junho.

Esta é exatamente a linguagem que os líderes militares de Moscou gostam de ouvir. Isto faz com que sintam que estão novamente sendo levados a sério. "As pessoas não gostam dos fracos. Elas não dão ouvidos a eles e os insultam. Mas se tivermos uma paridade de novo, eles adotarão um tom diferente conosco", diz o ex-ministro da Defesa russo, Sergei Ivanov.

Mas o que significa quando chefe do Estado-Maior militar em Moscou, em resposta aos planos americanos de instalar um sistema antimísseis na Polônia e na República Tcheca, volta a falar sobre o "uso preventivo de armas nucleares?" Quando ameaça a Geórgia e a Ucrânia, ambas ex-repúblicas soviéticas, com "força militar e outras medidas" caso ingressem na Otan? Ou quando Moscou, como aconteceu em dezembro, suspende sua participação no Tratado de Forças Convencionais na Europa (FCE) e passa a questionar outros acordos, como o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário?

Será isto uma demonstração de força para fins políticos domésticos, visando estimular o orgulho patriótico entre os russos? Estará a Rússia tentando voltar ao cenário internacional com instrumentos dos anos 70? Ou o Kremlin realmente se sente ameaçado de novo pelo Ocidente?

O restaurante Akademiya de Moscou fica em uma pequena travessa atrás do bulevar Tver, ao lado de uma sinagoga recém-construída. É um dos estabelecimentos chiques freqüentados pela nova elite russa. Stanislav Belkovsky, um homem atarracado com barba de três dias, óculos e uma ampla testa, que gosta de fazer seu café da manhã aqui, é o chefe do privado Instituto de Estratégia Nacional de Moscou.

A noção de que a Rússia está restaurando seu poderio militar a um nível próximo daquele da era soviética "não tem nada a ver com a realidade", diz Belkovsky. "Faz parte da propaganda com a qual o Kremlin busca distrair a atenção do público." Segundo um dossiê de quase 70 páginas intitulado "A Crise e o Declínio do Exército Russo" e publicado por seu instituto, a liderança militar deveria na verdade renunciar em massa. O relatório sugere que os anúncios e números apresentados pelas forças armadas são pura fantasia.

'Distraindo a atenção do público'
Segundo o dossiê, o exército recebeu apenas 90 tanques ultrapassados nos últimos sete anos, todos da única fábrica de tanques restante no país, na região dos Montes Urais. Especialistas ridicularizam o muito alardeado T-95, do qual falam há 15 anos, como sendo uma "ficção". Durante o mandato do ex-presidente Vladimir Putin, a força aérea recebeu apenas dois novos caças-bombardeiros Su-34, o caça Su-35, apresentado no ano passado como sendo um novo modelo, é na verdade um primo próximo de uma aeronave que já estava no ar durante o primeiro ano de governo do ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov, em 1985. Segundo o relatório de Belkovsky, projetistas russos estão "pelo menos 20 anos atrasados em relação aos seus pares americanos no desenvolvimento de seus caças de quinta geração". Apenas 50% de todos os aviões e helicópteros do país estão em operação, e as forças armadas russas sofrerão um déficit de 4.500 aeronaves no próximo ano, quando equipamento ultrapassado for retirado de serviço. A situação não é menos dramática no que se refere às armas nucleares. Sob Putin, 405 mísseis e 2.498 ogivas nucleares foram retirados de serviço, mas apenas 27 novos mísseis foram produzidos - três vezes menos do que sob o regime de Yeltsin, que foi altamente criticado por ser brando demais com os americanos. E a vida útil de 80% dos mísseis balísticos intercontinentais da Rússia expirou há muito tempo.

Belkovsky e seu instituto vêem o novo míssil "Topol-M" como uma arma "com valor dissuasor zero", porque os americanos sabem onde os mísseis estão estacionados e são capazes de atacar o projétil de 100 toneladas, juntamente com seu transporte, "com uma precisão de um centímetro" enquanto estiver sendo retirado de seu bunker. E o "Clava", o novo míssil "Bulava" com que a liderança militar planeja atualizar sua frota nuclear? Quase todos os testes até o momento provaram ser um fracasso. A SS-X-29, uma arma altamente secreta que contém múltiplas ogivas e, segundo os russos, é "invisível" porque é supostamente capaz de enganar todos os sistemas antimísseis, parece ter apresentado um desempenho igualmente ruim até o momento. Apenas 12 navios na frota naval, a base do escudo nuclear russo, estão atualmente equipados com mísseis balísticos.

"Nos anos 90, nós conseguimos mais ou menos manter o potencial estratégico que herdamos da União Soviética no mesmo nível", diz Belkovsky, sorrindo maliciosamente, "mas desde 2000, sua redução avançou com a força de uma avalanche. Nós perderemos nossa capacidade de conter nossos inimigos a nível nuclear". A menos que algo mude sob o novo presidente, diz Belkovsky, até mesmo as forças armadas convencionais da Rússia "sofrerão um declínio ao nível de um país europeu de tamanho médio em oito a 10 anos, e não seremos capazes de acompanhar países como a Turquia e o Japão".

Melhor grande do que eficaz
Pessoas de dentro da esfera política de Moscou consideram as suposições de Belkovsky provocativas demais, apesar de alguns acreditarem que ele está diminuindo os riscos de sua aposta e está em conluio com as agências de inteligência ocidentais. Mas muitos outros especialistas militares russos chegaram a conclusões semelhantes.

Não é coincidência o fato de que o ex-presidente Putin constantemente apontava que os gastos militares americanos eram 25 vezes maiores do que os da Rússia, diz Alexei Arbatov, diretor Centro para Segurança Internacional de Moscou. Isto, segundo Arbatov, é o motivo para os americanos terem 1,5 milhão de soldados e "forças armadas de uma qualidade que teremos que nos esforçar muito para igualar. Mas só somos capazes de financiar forças armadas com não mais que 600 mil soldados". Segundo Arbatov, a burocracia militar russa é um obstáculo para transformar as forças armadas em uma força menor, porém mais eficaz. O lema da liderança militar, segundo Arbatov, pode ser resumido desta forma: é melhor ser grande do que eficaz.

O fato de Putin, ao longo de seus oito anos na presidência, nunca ter se cansado de celebrar o ressurgimento do exército russo, melhorou a posição do Kremlin junto aos russos (e gerou novas encomendas para a corrupta indústria de armas russa). Mas a propaganda de Putin saiu pela culatra no exterior, porque beneficiou o país rival da Rússia, os Estados Unidos.

Citando os esforços de Moscou para se modernizar, o presidente George W. Bush pediu ao Congresso americano a aprovação de US$ 696 milhões em gastos militares para o próximo ano fiscal. Mas o problema com este argumento é que a ameaça russa é apenas uma desculpa barata.

Por anos, a Marinha americana vem atualizando seus mísseis balísticos intercontinentais Trident II instalados em seus submarinos. As forças armadas americanas também planejam substituir todas suas 5.045 ogivas nucleares ainda ativas até 2012 - um programa inacreditavelmente caro. Seria o primeiro de seu tipo em 20 anos, e os críticos questionam a necessidade deste programa. E o uso por Washington de um míssil para derrubar um satélite espião supostamente fora de controle, em fevereiro, alimentou suspeitas, não apenas em Moscou, de que os americanos nunca abandonaram de fato seu programa "Guerra nas Estrelas".

Quando um país se vê como a única superpotência restante, ele espera poder agir como bem entende. Os Estados Unidos se retiraram do Tratado de Mísseis Antibalísticos, que limitava a instalação de sistemas de defesa antimísseis. O Tratado START-1, que reduz o número de armas nucleares de longo alcance, expira no próximo ano, e outro tratado russo-americano para redução do potencial estratégico ofensivo expirará em 2012. A proposta de Moscou para substituir o START-1 por um novo tratado até o momento não obteve resposta de Washington. Quando todos estes tratados tiverem expirado, não haverá mais nenhum meio de monitorar as atividades militares do inimigo, incluindo as inspeções conjuntas, que ajudaram a reduzir a desconfiança mútua no passado.

Mas os russos estão presos em um círculo vicioso. Para forçar Washington a concordar com novos programas de desarmamento, os russos primeiro devem convencer os americanos a levá-los a sério. O problema é que Washington não está mais impressionada com o potencial dissuasor de Moscou. Até o final de 2012, ambas as potências terão entre 1.700 e 2.200 ogivas nucleares restantes em seus arsenais. Mas os russos sabem que até lá não mais que 1.000 ogivas permanecerão úteis.

Os russos se sentem enganados
Naturalmente, uma potência que vê a si mesma como cada vez mais vulnerável interpretará os avanços de seu rival como uma provocação. Os planos dos Estados Unidos de instalar sistemas de defesa antimísseis na Polônia e República Tcheca, ambos países próximos da fronteira ocidental da Rússia, foram recebidos com consternação em Moscou, assim como os avanços da Otan na direção da Rússia. Por toda a Europa, do Mar Negro ao Báltico, Moscou agora está estrategicamente isolada e marginalizada.

Os especialistas militares em Moscou sabem muito bem que os mísseis americanos na Polônia serão incapazes de interceptar os mísseis intercontinentais russos, tanto em termos de alcance quanto trajetória. O sistema não representa uma ameaça direta, diz Arbatov, acrescentando que alegações do contrário pelos líderes militares russos são pura propaganda. Mas elas são mais do que isso. O Kremlin foi capaz de usar a discussão em torno do escudo antimísseis americano como uma alavanca bem-vinda para fortalecer sua posição em futuras negociações de controle de armas.

Mas por que então ele está se retirando de um acordo como o FCE, que visa criar mais confiança na Europa, especialmente quando Moscou já se encontra "cronicamente incapaz" de esgotar as cotas de tanques e artilharia "às quais tem direito segundo este tratado", como escreve o Instituto de Estratégia Nacional de Moscou?

Porque os russos se sentem enganados. E porque a Otan se recusa a ratificar o Tratado FCE "modificado" porque Moscou ainda não esvaziou o depósito de armas obsoletas na pequena república de Moldova. Quase 20 anos após a queda do Muro de Berlim, as armas nos novos países membros da Otan ainda são contadas segundo os limites do Tratado FCE imposto ao atualmente datado "grupo de países do Leste". Enquanto isso, a aliança ocidental conta com uma verdadeira vantagem em termos de forças armadas convencionais.

Os russos consideram esta situação "absurda" e até mesmo cientistas políticos ocidentais concordam que é hora da Otan mudar sua posição. Em vez de buscar uma solução negociada, em vez de tranqüilizar o Kremlin de que sua intenção não é conter ou discriminar a Rússia, os críticos dizem que a Otan se colocou contra as cordas. Moscou não permite mais a entrada de inspetores militares estrangeiros no país desde dezembro passado, e parou de notificar o restante da Europa a respeito de movimentos de tropas e exercícios militares.

'Nossa liderança tem ignorado a ameaça chinesa'
A primavera chegou tarde neste ano a Chebarkul, uma pequena cidade no limite sul dos Montes Urais. Em maio, quando o gelo mal tinha derretido nos muitos lagos da área, os agricultores locais, seguindo o velho costume, botaram fogo na relva e ao longo das margens de seus campos. Nuvens espessas de fumaça logo encobriam as florestas cinzentas de bétulas, que ainda nem contavam com folhas novas, chegando até a capital provincial, Chelyabinsk, a 80 quilômetros de distância. Andrei Chabola também realizou a queimada em seus campos, mesmo que apenas para seu tanque tivesse um campo com visão livre para praticar tiro ao alvo e não incendiar a relva com sua munição.

Chabola é um coronel de 37 anos e já um vice-comandante da 34ª Divisão de Fuzileiros Motorizada russa. Ele é totalmente russo, alto, com modo de andar pesado, de passos largos e um nariz marcante em um rosto com bochechas vermelhas. Ele está em pé na plataforma da torre de controle olhando para um campo de treinamento de tanques, com o quartel de Chebarkul atrás dele. Vários tanques T-72 estão em processo de tentar cruzar valas e pontes a 45 km/h.

"Camarada coronel, obstáculo para tanque superado, sem incidentes, temperatura do óleo normal", informa um dos pilotos, gaguejando de empolgação. "Esplêndido", responde graciosamente o comandante. O 295º Regimento Cossaco está em treinamento.

Os homens que dirigem estes tanques não são mais cidadãos que entraram para as forças armadas devido ao serviço militar obrigatório. O Exército russo já começou a treinar soldados profissionais em Chebarkul, parte de uma crescente carreira militar cujo número já chega a 100 mil em todo o país. Este número é resultado de um acordo entre a liderança do exército e o Kremlin, que pede por mais forças efetivas desde as lições amargas da guerra na Chechênia.

Ninguém nesta base faz segredo de sua convicção de que a decisão tomada pelo topo é um grande erro. "Soldados contratados estão nisso pelo dinheiro, não pela pátria", resmungou um coronel. Ele prefere não ser identificado pelo nome. "A única motivação deles é a falta de perspectivas. Eles vêm das piores famílias."

Com dois homens do quartel-general da divisão em Yekaterinburg visitando a base, dificilmente alguém está disposto a expressar essas críticas em voz alta. As forças armadas e o establishment político já estão em atrito. Em Moscou, o chefe do Estado-Maior das forças armadas foi demitido no início de junho porque considerava as políticas do ministro da Defesa civil, um ex-comerciante de móveis, insanas e perigosas. Uma escola de treinamento para tanques também foi fechada em Chelyabinsk, e a profissão de oficial "não vale nada atualmente", diz o coronel. Mas os problemas de idade do Exército russo ainda não foram resolvidos. Segundo o coronel, as famílias de 122 mil oficiais não têm residência fixa, e um tenente "cairia na ruína em Moscou" com os 12 mil rublos, ou cerca de US$ 500, que recebe de salário.

Mas quando o assunto se volta para o Ocidente e a vodca ucraniana oleosa começa a correr no refeitório dos oficiais, os homens na base de Chebarkul começam a expressar suas opiniões em voz alta e em uma só voz. "Os americanos estão reforçando seus arsenais; eles estão nos cercando na Geórgia e na Ucrânia", brada Chabola, o vice-comandante da divisão. "Eles querem nos destruir." E não soa "como uma declaração de guerra", diz outro oficial, quando Madeleine Albright, a ex-secretária de Estado americana, diz publicamente que o fato da Sibéria, com seus recursos naturais imensos, pertencer exclusivamente à Rússia é uma das maiores injustiças do mundo?

Apesar de Albright ter repudiado o suposto comentário há muito tempo, a alma russa profundamente humilhada dificilmente reconhecerá as negações dela. Mas até mesmo os russos sabem que o mundo, 20 anos após o fim da Guerra Fria, se tornou um lugar diferente. Eles sabem que o número de ogivas nucleares que o país possui não são mais o fator decisivo, que um ataque surpresa pela Otan ou uma guerra entre países na Europa é altamente improvável e que, por estes motivos, simplesmente contar tanques e obuses não faz mais muito sentido.

Mas qual é a missão das forças armadas russas, para que conflitos potenciais a Rússia deve estar preparada? Até mesmo o coronel Chabola não acredita que a Otan ainda seja a principal adversária potencial do país. Após a queda do muro de Berlim, Chabola serviu por dois anos na cidade alemã oriental de Neustrelitz.

Moscou está obcecada com sua arqui-rival
Mas então ele foi transferido para Blagoveshchensk, uma cidade na região de Amur, no extremo oriente russo, diretamente na fronteira com a China. "Este é o local onde mais e mais chineses estão ingressando em nosso território", ele diz. "A Sibéria é grande e há muito poucas pessoas que ainda vivem lá atualmente." Para ser exato, a densidade populacional no lado russo da fronteira é de dois habitantes por quilômetro quadrado, em comparação a 103 nas províncias chinesas vizinhas.

Os chineses também foram a Chebarkul no ano passado, para participar de uma manobra chamada "Missão de Paz 2007". Ao todo, 1.400 soldados e oficiais do Exército Popular, assim como 300 soldados da aeronáutica, viajaram 10 mil quilômetros até esta pequena cidade russa nos Montes Urais para passar nove dias, juntamente com a divisão de Chabola, simulando a tomada de uma cidade ocupada por "terroristas". O exercício foi patrocinado pela Organização para Cooperação de Xangai, que foi fundada em 1996 para limitar a influência americana na Ásia.

"Os chineses trouxeram sua própria tecnologia de combate, armaram sua própria cidade de tendas separada e gravaram tudo em vídeo, de cada tanque russo aos potes de sopa em nossa cantina", diz o coronel. "Mas sempre que um de nossos homens queria tirar uma fotos deles, os seguranças deles intervinham imediatamente."

Isto não soa exatamente como uma amizade entre os povos soviético e chinês que ambos os lados insistiam existir no passado. Desde que conflitos de fronteira entre a China e a União Soviética ocorreram no Rio Ussuri em 1969, os russos nutrem profunda suspeita de Pequim. Os oficiais de Chabola são francos a respeito de quem acham que a Rússia deveria realmente temer: "os chineses". Um dos oficiais diz ter lido em algum lugar que Pequim concordou em não agir a respeito de suas disputas territoriais com a Rússia até 2015, "mas o que acontecerá depois disso?"

Estes temores, como são manifestados de forma simples e clara pelos soldados nesta base, são expressas apenas em termos mais educados nas análises dos cientistas políticos de Moscou. Eles escrevem que o Kremlin e a liderança militar ainda vêem o mundo pelo prisma das relações com os Estados Unidos, e que Moscou está obcecada por um desejo patológico de igualdade com seus arqui-rivais e não tem um entendimento realista dos futuros riscos militares. Segundo os especialistas do Instituto de Estratégia Nacional, "a suposição de que a Otan é nossa principal adversária potencial parece um tanto duvidosa atualmente".

A Rússia deveria ficar de olho em Pequim, diz Stanislav Belkovsky, enquanto está sentado no restaurante Akademiya e mexe taciturnamente seu cappuccino. Segundo Belkovsky, tanto a propaganda da China quanto seu desenvolvimento militar indicam que o país se expandiria primeiramente na direção da Rússia.

"O que nos espanta", diz Belkovsky, o estrategista que é tão impopular em casa, "é que nossa liderança simplesmente ignorou a ameaça chinesa até agora".

Fonte: Der Spiegel